INTRODUÇÃO
Produzidos
em quantidade considerável por escritores brasileiros do Século XX,
principalmente a partir da Década de 40 (Souza, 2001; Zagury, 1982), os
relatos autobiográficos sobre a infância podem ser considerados fontes
de evidente relevância para o estudo da interação entre os temas Memória
e Infância no contexto brasileiro desse período.
Na
esteira desse aumento de interesse pelo escrever sobre os “tempos de
menino”, interesse certamente relacionado a uma tendência mais geral de
valorização de relatos autobiográficos de maior abrangência (Nora,
1993), também com muita recorrência esse tema pode ser encontrado numa
outra importante produção cultural do nosso país: a canção popular.
Numa
perspectiva que tem possibilitado se considerar a produção de
compositores populares como crônicas sobre aspectos marcantes de nossa
história e de nossos costumes (Matos, 1982; Napolitano, 2002), é possível
admitir-se que letras de músicas populares que falam sobre a infância de
seus compositores, portanto também discursos autobiográficos, podem,
assim como os relatos orais ou escritos, representar fonte relevante,
ainda que pouco usual, para o estudo sobre a Memória da Infância no
Brasil do Século XX.
O
conceito/sentimento moderno de Infância, que começa a ganhar significado
a partir do Século XVII (Ariés, 1981; Gélis, 1991) e que, segundo
Postman (1999), está em vias de desaparecer, tem assumido a fragilidade,
a inocência e a felicidade como características idealmente associadas à
categoria social dele derivada: a criança. Entretanto, como atestam
Kuhlmann Jr. & Fernandes (2004), “se é possível falar de um
sentimento moderno da infância, isso não quer dizer que as crianças
reais das diferentes classes e grupos sociais vivam a representação
sonhada pelos adultos” (p. 24). Tem mostrado tal fato boa parte da produção
acadêmica sobre a história da infância no Brasil (por exemplo, Freitas,
2003; Del Priore, 2000). Ainda assim, pode-se considerar que essa
“representação sonhada pelos adultos” condiciona diretamente o
recontar a infância por esses mesmos adultos (Chombart de Lauwe, 1991),
seja no sentido de confirmar essa representação ou de nega-la através
das suas próprias recordações.
Com
a utilização de relatos orais sobre a infância, trabalhos realizados no
Brasil sobre memórias de nascidos a partir do final do Século XIX (Bosi,
1999; Caldana; 1998; Silva, Garcia e Ferrari, 1989; Fernandes, 2002,
Cardoso, 2004) têm apresentado pontos coincidentes: a) a tendência
considerável dos entrevistados em relatarem acontecimentos de suas infâncias
vividas em locais sobre os quais também tecem avaliações sobre
elementos que desaparecem ou mudam ao longo do Século XX; b) a
caracterização das atividades infantis como o conteúdo mais
recorrentemente evocado; c) para aqueles entrevistados criados em famílias
mais pobres, aparecem como relevantes a situação de privação em suas
infâncias, bem como a descrição de atividades que poderiam ser
caracterizadas atualmente como trabalho infantil; d) um certo tom saudoso
presente em vários relatos.
Esse
último elemento, que conjuga lembrar e sentir, nos parece fundamental na
proposição de uma linha investigativa sobre a Memória Social no nosso
país. Tal entendimento está baseado na freqüência com que,
cotidianamente, utilizamos o termo Saudade para indicar a existência de
um componente explicitamente afetivo no que é recordado. Esse componente
certamente implica a articulação, ainda que em níveis diferentes, de
uma série de fatores responsáveis pela determinação do que pode ser
considerado socialmente como saudoso: a representação mais geral do
objeto do qual se tem saudade, a dinâmica dessa representação em
contextos adversos à mesma e, por fim, uma concepção mais cotidiana de
que sentir saudade é algo caracteristicamente brasileiro (Nascimento e
Menandro, 2005).
Numa
perspectiva que admite que tanto a identificação dos objetos aos quais
relacionamos nossa Saudade (Botelho e Teixeira, 1986; DaMatta, 1993)
quanto a construção de conteúdos de Memória são eminentemente
negociadas no jogo das práticas cotidianas, implicando uma partilha de
concepções e imagens que pode permitir a produção de um campo de
significados comuns (Sixto & Justicia, 2003; Halbwachs, 1990;
Jedlowski, 2001; Olick, 1999; Connerton, 1999), parece-nos relevante
analisar a interação entre elementos saudosamente recordados num jogo de
coerências identificado como próprio da organização das lembranças
(Santos, 2003; Pollak, 1992; Lowenthal, 1998; Fentress e Wickham, s/d). No
nosso caso específico, das lembranças saudosas da infância.
Assim,
este trabalho teve como objetivo identificar e analisar os principais
elementos do discurso sobre a saudade da infância presentes em letras de
canções populares compostas ou gravadas a partir de 1927 (a partir da Década
de 20 a produção fonográfica, principalmente a popular, cantada em
português, vai progressivamente se avolumando).
METODOLOGIA
Foram
analisadas 70 letras de músicas compostas e/ ou gravadas a partir de
1927, que ficaram assim distribuídas pelas décadas: a) 1927-1934 (05
letras); b) 1935-1944 (08); c) 1945-1954 (07); d) 1955-1964 (12); e)
1965-1974 (07); f) 1975-1984 (11); g) 1985-1994 (09); e h) 1995-2002 (11).
A coleta de letras de sambas, marchas, modas de viola, repentes, guarânias,
valsas, xotes, frevos, entre outras modalidades, foi realizada em livros,
revistas, discos e CDs de acervos particulares volumosos e
representativos, pelo fato de abrangerem todo o século XX a partir dos
anos 1920, e no acervo da Rádio Espírito Santo AM, em Vitória/ES. Como
critérios para a inclusão de uma letra no banco de dados, utilizamos:
1)
Presença da palavra “saudade”. Pelo fato de se tratar de palavra que
não tem sinônimo exato, os letristas empregam, com freqüência,
exatamente essa palavra quando querem mencionar o assunto. Uma alternativa
possível foi lançar mão de expressões, correntes ou originais, que
pretendessem transmitir a mesma idéia. Isso remete ao próximo critério.
2)
Presença de elementos que comuniquem um estado ou sentimento
explicitamente saudoso, ainda que não esteja presente a palavra
“saudade”, valendo-se de expressões que podem ser consideradas como
pertencentes a esse âmbito. São expressões do tipo “tempo bom que não
volta mais”, “quem dera voltar àquele tempo”, “que falta sinto da
terra em que cresci”, “como era bom meu tempo de brincar”, que são
expressões claramente relacionadas com a idéia de saudade.
Deve-se
ainda observar que, seguindo uma tendência da produção musical
brasileira em geral, no banco de dados analisado o número de letras de
compositores excedeu em muito o de compositoras. Assim, esse trabalho
refere-se explicitamente às memórias de infâncias masculinas. Sobre tal
aspecto, a literatura tem mostrado que a diferenciação entre memórias
masculinas e femininas é significativa, pelo menos quanto ao conteúdo:
as memórias femininas têm como característica geral se relacionarem com
mais freqüência ao espaço privado/ doméstico, em oposição às
lembranças masculinas, que possuem forte referência ao lado de fora da
casa (Perrot, 1989; Bosi, 1999; Fentress e Wickham, s/d) (1).
Para
o tratamento desse banco de letras sobre lembranças saudosas da infância
foram utilizados três procedimentos de análise: 1) um programa
computacional para análise estatística de dados textuais, o ALCESTE (Analyse
Lexicale par Context d’un Ensemble de Segments de Texte -
Kalampalikis,
2003; Reinert, 1998 e 2001);
2) um procedimento clássico de Análise de Conteúdo (Bardin,
1979; Bauer, 2002; Vala, 2003);
e num terceiro momento, 3) um procedimento que acreditamos ter promovido a
articulação dos dois primeiros e proporcionado uma apresentação mais
contextualizada dos vínculos entre as letras analisadas. Identificamos
esse processo como “Redes de Conteúdo”.
RESULTADOS
Devido
às limitações que esse formato de texto pressupõe, optaremos por
apresentar os principais resultados dos três procedimentos, procurando
conjugá-los na seção de Discussão.
ALCESTE
De
forma mais geral, o software ALCESTE parte do pressuposto de que
grupos diferentes se expressam utilizando vocabulários também diferentes
(Kronberger e Wagner, 2002). Nessa direção, o programa trabalha com a
identificação de co-ocorrências de palavras em segmentos de texto,
objetivando detectar agrupamentos maiores de elementos que possam sugerir
também agrupamentos de representações sobre determinado objeto alvo do
discurso analisado. Da série de resultados dos procedimentos estatísticos
realizados pelo software utilizaremos para esse trabalho os
resultados da Classificação Hierárquica Descendente (CHD) (2),
da Análise Fatorial de Correspondência (AFC), assim como exemplos de
Unidades de Contexto Elementar características
de cada uma das classes.
Na
Figura 1 podemos observar as quatro classes resultantes da CHD, bem como a
porcentagem de Unidades de Contexto Elementar contidas em cada classe, as
formas reduzidas de palavras relacionadas a cada uma das classes, com o Q²
de associação, e os títulos dados por nós às classes.
- Figura
01: Formas reduzidas distribuídas por Classe (CHD)
Além
das Classes e formas reduzidas, o programa produz uma lista de UCE
características de cada Classe, acompanhadas pelo Q²
que indica associação, ou seja, quanto maior o Q²,
mais característica da Classe é a UCE apresentada. Essa lista serve como
primeira informação a ser utilizada para se nomear as Classes, pois
permite recuperar as palavras associadas com a classe (em negrito) em seu
contexto mais próximo. As UCE devem ser lidas em conjunto, a fim de que
se possa extrair sentido no confronto das informações gerais de cada uma
das Classes.
UCE
Características da Classe 01:
Q²
Unidade de Contexto Elementar
23
“estou velho e a saudade da infância vai chegando
e eu fico sempre a recordar que soltava o meu barquinho
na torrente e ele ia para nunca mais voltar”. Barquinho de papel
(Antônio Vieira); 2002.
19
“vou rodar pião, vou brincar na
areia lá do meu terreiro. Quem chegar primeiro vai
ter seu lugar. Vou cantar ciranda, vou sujar
a cara, vou crescer depressa, vou me
agigantar”. Ciranda (Manuelito); 1996.
Na
lista acima queremos chamar a atenção para o elevado número de verbos
que indicam movimento (chegar, rodar, brincar, soltar, cantar, por
exemplo) apontando para uma tendência à caracterização da Classe como
um agrupamento que envolve atividades relacionadas preferencialmente a
contextos que poderiam ser identificados como de brincadeiras. A própria
noção de brincadeira, assim como as menções a “crescer depressa” e
“agigantar” deixam evidente um componente de imaginação sempre
presente.
UCE
Características da Classe 04:
Q²
Unidade de Contexto Elementar
29
“imagens que guardo tão minhas dos bons tempos para trás,
do bate-papo alegre na pracinha, oi, amor, o amor
de criança que aqueceu minha ilusão”. Bons tempos (Raul
Sampaio); 2001.
26
“dos meus tempos de criança guardo tanta
coisa boa. Dos sonhos, ilusões e da lembrança
da vida que eu levava à toa, da primeira namorada, do
primeiro beijo amigo”. Meus primeiros carnavais (Silvio Silva e
Romeo Nunes); 1968.
Como
pudemos observar na Figura 1, as classes 01 e 04 possuem uma maior
proximidade, formando um grupo que deve ser entendido como não vinculado
ao grupo formado pelas classes 02 e 03. Ainda que as Classes 01 e 04
possuam essa maior proximidade relativa, nas suas identificação e nomeação,
elas devem ser consideradas como também formadas por elementos que se
excluem, mesmo que menos radicalmente. Se assim não fosse, seriam uma só
Classe. Dessa forma, a leitura das UCE características da Classe 04, onde
elementos como ilusão, alegria, amor, sonhos e feliz estão presentes,
parece já apontar para um agrupamento maior relacionado aos sentimentos
associados às atividades próprias do mundo da infância, o que pode ser
reforçado pela idéia de que algo da infância ficou guardado, algo não
propriamente material. Temos, então, para as Classes 01 e 04, a formação
de uma dupla referência: atividade-imaginação e sentimento-lembrança.
Veremos depois como essa dupla referência pode ser entendida na comparação
com a dupla referência produzida pelas Classes 02 e 03.
UCE
Características da Classe 02:
Q²
Unidade
de Contexto Elementar
24
“quando eu saí de casa, me atropelei no espaço.
Tudo era aço e todo inteiro que eu pensei era pedaço [eu
sei]. Eu sei, eu via o mundo com os olhos presos num
segundo”. Eterno Instante (Gê Lara); 1997.
19
“E você queria que o mar fosse no quintal, e
ancorar lá no terreiro numa ilha de isopor. O meu farol era uma
flor daquelas que o cheiro incendeia, ioiô”. Cirandinha
(Josino Medina); 1996.
16
“O remédio era chá de quinequina, erva doce, canela e
agrião. Alimento cuscuz, queijo e feijão, milho assado, canjica e
melancia. [Se a viola falasse, cantaria a saudade que sinto do sertão]. O
sertão que morei de antigamente sei que o povo era
mais ignorante, mas sabia prezar seu semelhante, respeitar a Jesus
onipotente”. Saudades do sertão (Luiz Antônio, Damião da Silva);
2000.
14 “tempinho
bom que não volta mais! Em Minas Gerais tem ferro, tem
ouro, tutu, tem gado zebu, tem também umas toadas,
alma sonora das quebradas, encanto das
noites de luar”. Aquarela mineira – Parte 1 (Ary Barroso); 1950.
Note-se
que, de maneira geral, as UCE características da Classe 02 estão
relacionadas à identificação/ descrição de lugares (casa, mundo,
terreiro, sertão, Minas Gerais), de elementos caracterizadores de
determinados lugares (gado, flor) e de elementos que podem estar se
referindo também a uma identificação da rede de sociabilidade lembrada
(povo).
UCE
Características da Classe 03:
Q²
Unidade
de Contexto Elementar
41
“eu corria acelerado pra segurar na
sua mão que, de macia, parecia papel fino de balão.
E hoje, quando chega São João, eu vejo quanta coisa
se acabou”. Olhando o céu todo enfeitado (Assis Valente); 1935.
41
“Chegou a hora da fogueira, é noite de São João.
O céu fica todo iluminado, fica o céu
todo estrelado, pintadinho de balão”.
Chegou a hora da fogueira (Lamartine Babo); 1933.
A
direção do agrupamento dessa Classe é mais evidente que as anteriores.
Trata-se das Festas de São João. Estão aí os seus elementos mais
tradicionais: a fogueira e os balões. Nessa Classe também o elemento
visual desempenha um papel importante: ver o céu estrelado, pintadinho de
balão.
Na
nomeação das Classes 02 (Povo, terra, casa) e 03 (Festa de São João)
levamos em consideração a polaridade entre uma descrição estrita de
espaço físico (aqui povo e mãe, conforme a Figura 1, são entendidos
como elementos que também compõem esse espaço) e a particularidade de
um momento que apresenta, por suas características, um acontecimento
totalmente associado a tal espaço. É necessário observarmos que, embora
nessa Classe também existam verbos de movimento, esses verbos se referem
às atividades relacionadas a um acontecimento específico: a Festa de São
João.
Tomando
as 04 Classes em suas inter-relações, numa visão mais abrangente,
podemos estabelecer dois grandes pólos. O primeiro, formado pelas Classes
01 e 04, representa, na nossa avaliação, um grupo que se refere a algo
que foi ou é sentido como decorrência da vivência do mundo infantil
“por dentro”, ou seja, com atividades, brincadeiras, imaginação, emoções,
ilusões e inocência. O pólo refere-se ao sujeito: é ele quem corre
contra o vento e essa lembrança de felicidade tem caráter diverso de uma
simples descrição da atividade. No segundo pólo, os elementos visual e
sonoro das festas de São João (Classe 03) e a descrição do lugar
(Classe 02) se “unem” na oposição ao que é eminentemente sentimento
recordado. Nomeamos, assim, o grupo formado pelas Classes 01 e 04 como
“Interpretativa – Imaginativa, ‘O sentimento do mundo infantil’”
e o grupo formado pelas Classes 02 e 03 como “Descritiva – Visual –
Sonora, ‘Imagens do pequeno mundo outrora’”, numa tentativa de
ilustrar a partir de uma perspectiva mais simbólica o que até agora
discutimos (3).
Na
Figura 2 encontraremos a representação da Análise Fatorial de
Correspondência realizada pelo Alceste. Nessa figura estão as formas
reduzidas relacionadas a cada uma das Classes, o que nos permite
acompanhar as inter-relações acima descritas. Aqui convém observar que
os resultados do cruzamento entre classes e períodos (também realizado
pelo programa) não apresentou, com exceção para o período 1955-1974 na
Classe 04, uma maior identificação entre grandes períodos consecutivos
e as Classes. Isso demonstra
que há uma manutenção de vocabulário no discurso saudoso sobre a infância
ao longo do século. A Figura 2 também apresenta de maneira mais visível
a polarização por nós identificada entre as Classes 01 e 04 e as
Classes 02 e 03. Observe-se que no Eixo 01 (x) encontramos se contrapondo
os agrupamentos de palavras que indicam predominantemente “Contexto”
(mundo, rio, sertão, lua, chão, terra, gente, por exemplo) ou
“Atividade” (brincar, jogar, correr, voltar, bola, por exemplo). O
Eixo 2 (y) é constituído pelos pólos “Sentimento” (notar que a
Classe 04 tem todos os seus elementos aí localizados) e “Mundo”
(agrupam-se aqui as palavras que se referem a atividades, incluindo as
juninas, e aos locais onde essas ocorrem).
Figura
02 - Análise Fatorial de Correspondência (Classes, formas reduzidas e
eixos)
ANÁLISE
DE CONTEÚDO
Optamos
por apresentar no Quadro I os resultados gerais da Análise de Conteúdo,
apontando as Categorias e o total de itens (subcategorias) classificados
em cada uma delas. Como se pode observar nesse quadro, as categorias que
mais concentraram elementos foram: Atividades (43 subcategorias),
Brincadeiras, jogos, brinquedos (26) e Elementos Naturais (23). Essas
categorias continham, por exemplo:
-
Atividades:
Correr/ correr de pé descalço (11 letras), Brincar (08), Banhar-se
no rio/ cacimba/ nadar (06), Andar à toa/ ganhar a rua/ vadiar (05),
Fazer travessura (04), Ir ao cinema (03), Trocar gibi/ figurinha (02),
Jogar pedra em mangueira/ colher mexericas (02), Pescar (02), Pular
fogueira (02), Sambar/ sambar de pé no chão (02), Pular na rua/
pular (02), Caçar passarinho (02), Brigar (02) e Andar no mato (02).
Exemplo:
“Garoto da rua que corre na frente da turma valente, que tasca balão,
na bola de meia é craque afamado, é rei coroado cravando pião”.
Garoto da Rua (René Bittencourt); 1947.
-
Brincadeiras,
jogos, brinquedos: Roda/ ciranda (09 letras), Pião (08), Futebol
(07), Balão (06), Papagaio/ pipa (06), Bolas de gude (04) e
Polichinelo/ boneco de palha/ boneca (03).
Exemplo:
“Ai, que saudades que eu tenho duma travessura, o futebol
de rua, sair pulando muro, olhando fechadura e vendo mulher nua”. Doze
anos (Chico Buarque); 1979.
-
Elementos
Naturais: Rio/ cachoeira/ lagoa/ regato (12 letras), Árvores frutíferas/
frutas (09), Pássaros (08), Luz do sol/ sol (05), Campina/ mato/
serra verde (04), Chuva (04), Palmeira/ pé de cedro/ paineira/
plantas (03), Flores (03), Vento/ brisa (03), Luar (03).
Exemplo:
“Quisera ver-te no passado, Olinda, quando ainda eras cheia de ilusões,
para contemplar a tua paisagem, para olhar teus mares, ver teus
coqueirais”. Olinda, Cidade Eterna (Capiba); 1950.
Quadro
I – Categorias da Análise de Conteúdo
REDES
DE CONTEÚDO
Antes
de iniciarmos a apresentação dos resultados desse procedimento, é
necessário que façamos mais algumas considerações, além daquelas já
realizadas na Metodologia, sobre a construção das Redes de Conteúdos.
Como já anteriormente dito, as categorias formadoras das redes são
provenientes da análise do Alceste e das principais categorias da Análise
de Conteúdo (4). Isso nos possibilitou a reunião
de algumas categorias presentes nessa segunda análise (AC) sob uma
categorização mais geral proposta pelo software, como pode ser vista a seguir:
*
Atividades infantis, brincadeiras, jogos = Atividades + Brincadeiras,
jogos, brinquedos (maior quantidade de elementos reunidos no Alceste na
Classe 01: Atividade e Imaginação);
*
Um tempo feliz, sonhos, ilusões = concepções (positivas) de infância +
sonhos e ilusões + ontem (maior quantidade de elementos reunidos no
Alceste na Classe 04: Sentimentos guardados);
*
Vínculo com o lugar = Vínculo com o lugar;
*
Hoje sofrido, triste = Hoje + Ilusões perdidas/ sonhos mortos;
*
Rua, praça, quintal = “Rua” + “Praça/ Largo” + “Quintal/
terreiro” da categoria Lugares;
*
Sociabilidade = Sociabilidade menos “Primeiro amor/ meninas/ mocinhas/
primeira namorada”;
*
Amores infantis = Elementos amorosos + “Primeiro amor/ meninas/
mocinhas/ primeira namorada” da categoria Sociabilidade;
*
Elementos musicais = Elementos musicais;
*
Festas = Festas (maior quantidade de elementos reunidos no Alceste na
Classe 03: Festa de São João);
*
Quem dera voltar = Quem dera voltar;
*
Não volta mais = Não volta mais;
*
Elementos naturais = Elementos naturais.
Observe-se
que alguns elementos constitutivos da Classe 03 do Alceste (Terra, povo,
casa) estão distribuídos nas categorias Sociabilidade, Vínculo com o
lugar e Elementos naturais. Preferimos manter essa pulverização, pois a
intenção aqui foi unir previamente apenas os resultados das duas análises
que apontassem de forma mais evidente para uma mesma direção. No nosso
entender, tal possibilidade não se dava para a formação de apenas uma
categoria que juntasse elementos aparentemente tão diversos
(Sociabilidade, Vínculo com o lugar e Elementos naturais); somente os
resultados da construção de uma Rede de Conteúdos poderiam representar
na co-ocorrência de elementos um agrupamento que se assemelhasse ao
resultante da Classe 03 do Alceste.
Constituídos
o que a partir de agora chamaremos de “nós” de conteúdos, efetuamos
uma nova leitura do banco de dados, anotando para uma mesma música a
co-ocorrência de elementos passíveis de serem incluídos em cada um
desses nós nas suas linhas de união. Temos, portanto, nas figuras das
redes a freqüência dessas ligações entre as letras das canções. A
somatória dessas freqüências em cada uma das figuras não é
necessariamente menor ou igual a 70 (número total de letras) porque uma
mesma letra, e esse é o objetivo, está classificada, no mínimo, em dois
nós. Como procuramos proceder à análise letra por letra até que para
cada uma delas estivessem esgotadas as possibilidades de classificação
em outros nós, além dos já identificados, obtivemos uma rede total de
relações entre os agrupamentos de elementos. Como é possível imaginar,
tal processo teve como resultado uma figura que se revelou, com linhas
cruzadas entre 12 nós e com a distribuição de 70 pontos entre essas
linhas, impossível de ser representada de uma forma mais clara nos
limites de uma página. Optamos, por esse motivo, para o presente artigo,
pela apresentação dos dois nós que mais agregaram elementos, ou seja,
que se articulam de forma mais consistente com os demais: são eles
“Atividades infantis, brincadeiras, jogos” e “Elementos naturais”
(Figura 03).
Figura
03 – Nós “Atividades
infantis, brincadeiras, jogos” e “Elementos naturais” da Rede de
Conteúdos
O
primeiro nó apresentado é o que representa as “Atividades infantis,
brincadeiras e jogos”. Considerando a alta freqüência já observada na
AC para as categorias que compõem esse nó, é possível perceber as também
significativas freqüências de relação entre ele e os demais nós. Esse
é, provavelmente, o mais significativo agrupamento de elementos de todo o
corpus, pois se articula de
forma significativa com todos os demais. Pode-se observar na Figura 03 uma
caracterização geral de que as atividades infantis lembradas se deram
predominante na rua, na praça, ou no quintal (19 letras/co-ocorrências),
que são lugares onde foi possível o contato com elementos da natureza,
como árvores frutíferas e rios (21), foram predominantemente realizadas
em situações de sociabilidade com outros meninos ou parentes (20), e
foram relacionadas a uma lembrança significativa de elementos musicais
(14) e ao contexto de vínculo com algum lugar específico lembrado (08).
Essa recordação de atividades e brincadeiras, confirmando a relevância
dos elementos de sociabilidade, também propiciou a recordação dos
primeiros amores (11). Por todas essas características apontadas já
seria possível prever que as atividades e brincadeiras estariam
fortemente associadas à idéia de um tempo feliz (16), havendo ocorrência
de tal associação em todas as décadas consideradas.
O
outro nó representado na Figura 03 é o que apresenta os “Elementos
Naturais” recordados pelos compositores. Note-se a relação
significativa desses elementos com os nós “Um tempo feliz, sonhos, ilusões”
(11) e “Rua, praça, quintal” (19). Além desses nós, são
relevantes, em suas co-ocorrências com a lembrança de elementos
naturais, os “Elementos musicais” (14), o “Vínculo com o lugar”
(15) e a “Sociabilidade” (22). A associação expressiva de
“elementos naturais” com “vínculo com o lugar” e com “rua, praça,
quintal” parece decorrer do imperativo óbvio de estar em jogo uma mesma
esfera de ocorrências ou situações.
DISCUSSÃO
Como
havíamos apontado anteriormente, os resultados encontrados indicam a
recorrência de elementos recordados que podem ser considerados como
constituintes de um mundo representado tradicionalmente como de meninos:
as Atividades Infantis (correr, andar à toa, fazer travessura), as
Brincadeiras e Jogos (futebol, pião, balão, papagaio), a Sociabilidade
(meninada, moleques, companheiros, turma) e os Lugares onde tudo isso
acontece (rua, quintal, terreiro, praça). Podemos acrescentar a esses os
Elementos Naturais (também indicativos de locais exteriores ao espaço da
casa).
O
grupo formado por elementos relacionados às atividades infantis,
brincadeiras e jogos caracterizou-se como o mais recorrentemente lembrado.
No Alceste, a Classe “Atividade e Imaginação” concentrou 41% das UCE
analisadas. Convém observar também sua alta freqüência no quadro da Análise
de Conteúdo (Quadro I – Atividades: 43 subcategorias; Brincadeiras,
jogos, brinquedos: 26 subcategorias), bem como sua também alta relação
com os demais nós das Redes de Conteúdos (Figura 03), o que aponta para
a possibilidade desse agrupamento ser, ao mesmo tempo, fator de agregação
e de articulação entre os demais elementos recordados. Seguindo essa
informação, pode-se observar que no quadro da Análise Fatorial de
Correspondência a palavra saudade
encontra-se ligada mais fortemente ao “mundo” do que ao
“sentimento”. Isso indica que a saudade
aqui é entendida como relacionada primordialmente a objetos e ações,
“tenho saudade disso ou daquilo”, aparecendo de maneira menos forte
uma possível tendência a contextualizar o vocábulo saudade
no jogo sentimental mais estrito. Queremos dizer com isso que os dados
apontam não para um sentimento de saudade gerando a enumeração dos
elementos da infância, mas, contrariamente, para o fato de que a enumeração
de elementos recordados traz consigo a saudade como medida de valor
afetivo dos objetos e ações lembrados.
Nas
letras analisadas a rua é recordada como o lugar onde mais freqüentemente
eram realizados os jogos e as brincadeiras e faz parte de um conjunto
maior formado também pela praça e pelo quintal, o que caracteriza a infância
lembrada, como dissemos acima, basicamente relacionada ao espaço não doméstico.
Tradicionalmente, esse espaço é considerado como “perigoso”, pois
que lugar oposto, numa perspectiva relacional, ao da casa, entendida como
familiar e segura (DaMatta, 1991). Por isso, a rua das memórias da infância
é um mundo a ser descoberto e dominado.
A
identificação dos espaços externos à casa deve ser também considerada
em seus aspectos de relação com a Sociabilidade e com os Elementos
Naturais. Esses espaços são lembrados como os espaços da meninada
(observe-se que boa parte dos jogos e brincadeiras recordados é
essencialmente coletiva), das aventuras, dos primeiros amores.
É
possível, pela quantidade de citações conjuntas de “rua, praça,
quintal” e de “elementos naturais” (19 – Figura 03), afirmarmos
que a lembrança da infância na música popular refere-se
significativamente às cidades do interior, à zona rural e/ ou às
cidades que no período de infância dos compositores ainda não tinham
trocado as árvores pelos edifícios. Como as informações de cada uma
das letras são bastante sintéticas, pela própria natureza que as
caracteriza, não encontramos as comparações explícitas entre o espaço
geográfico da infância e aquele habitado pelo memorialista no momento da
composição, presentes em relatos sobre a infância produzidos em outros
estudos, conforme apontamos na Introdução. Entretanto, duas informações
podem, mesmo que indiretamente, suprir essa ausência:
A)
A primeira é o progressivo aumento, a partir do período 1975-1984, das
referências ao “quintal”, tendo como possível explicação a
industrialização e a urbanização das principais cidades brasileiras ao
longo do Século XX, intensificada após a década de 50, Século no qual
a população do país aumentou quase 10 vezes (Berquó, 2001). Ainda que
possamos pensar em uma substituição, talvez definitiva, da rua pelo
quintal na identificação do palco da infância (correr ou jogar bola
entre carros e ônibus é uma travessura arriscada demais...), essa tendência,
entretanto, só encontra a possibilidade de ser confirmada numa análise
das letras produzidas no futuro.
Mesmo
que de forma indireta, um outro fator pode estar aqui envolvido: a
popularização do livro O meu pé
de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, que teve sua primeira
edição em 1968, com posteriores adaptações para cinema e televisão
(Minchillo, 2001), tendo, inclusive, servido como fonte para o enredo da
Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel no desfile de 1970.
O livro foi adotado como leitura obrigatória em várias escolas e
representa até hoje uma das obras mais vendidas na história do mercado
editorial brasileiro (hoje, 2005, está em sua 100ª edição).
Obviamente, não estamos afirmando que todos os compositores tiveram
acesso direto à obra. O que estamos dizendo é que uma maior valorização
social do tema infância e quintal,
que resultou na obra ou foi dela resultante (não é o que nos interessa
para o momento), não deve ter passado despercebida pelos letristas.
B)
A segunda informação, que, como a primeira, é condizente com a importância
do quadro espacial como suporte de lembranças (Halbwachs, 1990),
refere-se aos indícios, apontados nos resultados (Figura 03 – Nó
“Elementos naturais”), de grupos de elementos que podem estar
relacionados a uma memória de migrantes. Essa informação pode ser
contextualizada pelos dados apresentados por Berquó (2001) e por Thery
(2001) sobre os fluxos de migração interna no Brasil ao longo do Século
XX. Exemplificando a importância desses fluxos, sobretudo após 1930,
somente para o período entre os anos 1970 e 1980 “estima-se a migração
rural-urbana em torno de 15,6 milhões de brasileiros” (Berquó, 2001,
p. 24).
C)
Outras duas características do próprio conjunto das letras analisadas
podem reforçar nossa hipótese. A primeira é a freqüência quase
inexpressiva de menções aos elementos litorâneos. Isso poderia, em
parte, ser explicado pelo processo de urbanização do Rio de Janeiro (um
dos núcleos da indústria fonográfica brasileira), cuja região litorânea
foi ocupada, já antes da metade do Século XX, por prédios destinados àqueles
com maior poder aquisitivo. Ainda assim, isso não necessariamente
impediria que também os moradores mais pobres, como, por exemplo, os das
favelas, já difundidas no Rio do início desse mesmo Século, tivessem
acesso ao mar, pelo menos através de uma vista privilegiada dele (Marins,
1998). Tais informações podem estar excluindo o próprio Rio de Janeiro
como lugar da infância da maior parte dos compositores. Como indicativo
da caracterização das letras como lembranças predominantemente de
migrantes, outro fator que merece ser apontado, o segundo, é a também
ausência significativa das citações aos bondes (02 letras), já no início
do Século XX presentes em algumas das principais cidades do país, e
mencionados por outros memorialistas para a cidade de São Paulo (Bosi,
1999; Costa Jr., 2001).
Retomando
a consideração da importância do quadro espacial como suporte de
lembranças, podemos admitir que a recorrência da lembrança de elementos
naturais, nos lugares que foram recordados, indica a atual inexistência
de vários desses elementos (urbanização) ou indica que o sujeito que
recorda se encontra distante dos mesmos (migração). Em ambas as situações,
a importância do elemento descritivo nos relatos analisados nos remete à
consideração de que as mudanças no ambiente, seja por alterações do
mesmo ambiente, seja pela inserção em um novo, estão estreitamente
relacionadas tanto ao conteúdo recordado quanto à avaliação do mesmo.
Essa perda de quadro espacial pode estar proporcionando a simplificação
dos elementos recordados no sentido de transformar o conjunto geral de
recordações sobre o espaço da infância num agrupamento esquemático de
elementos comuns e partilhados.
É
preciso que se considere a percepção da infância como um tempo feliz,
ou, como sugere Abramovich (1983), a recorrência, no tratamento
tradicionalmente dado ao tema, do “mito da infância feliz”. Pode-se
perceber a importância dessa percepção nas letras analisadas através
das informações fornecidas pelo Alceste (Classe 04 – Sentimentos
guardados). Primeiramente, é conveniente apontar alguns elementos mais
específicos da infância feliz relatada pelos compositores. Identificada
como um tempo em que estão fortemente associados aspectos lúdicos, a infância
recordada também se refere a uma potencialidade. A vida, então, era
considerada como o lugar dos sonhos, das ilusões, da imaginação e dos
descobrimentos. Perceba-se também que a idéia que dá suporte ao
argumento de um presente menos feliz decorre da percepção de que algumas
letras retratam a passagem do tempo como “queda”, como perda de ilusões,
de sonhos e de alegria.
Deve-se
considerar que, admitindo que a infância do migrante esteja fortemente
representada no banco de dados, na lembrança do lugar não está
descartada a volta a ele, assim como o rever parte de sua gente, mesmo que
a possibilidade dessa volta, por algum motivo, seja remota. Num retorno
aos resultados do Alceste podemos perceber que as palavras alegria, feliz
e amor se unem de forma mais forte àquelas relacionadas às atividades,
em oposição a uma descrição do ambiente. Aqui podemos argumentar que,
a partir disso, o discurso saudoso não é escapista ou alienado. Ele não
fala só de um passado feliz, mas, sobretudo, de um momento atual como sofrimento que se relaciona de maneira umbilical à percepção de
um mundo opressor e alheio ao querer do sujeito que recorda. Por isso, os
sentimentos guardados são também guardados do mundo (a Análise Fatorial
de Correspondência mostra uma possível oposição no eixo y entre os
“sentimentos” guardados e o resto desse “mundo”). Nessa mesma direção
pode-se apontar para uma particularidade do discurso sobre a memória
saudosa da infância: ela não quer a volta do objeto recordado, e sim o
que ele representa.
De
forma mais abrangente, é possível se considerar que o discurso saudoso
nas letras das músicas analisadas não é particularizado. Ele não está
dirigido a um ouvinte específico, talvez porque, pelas próprias características
do tema, esteja subentendido para os compositores que todos os seus
ouvintes saibam exatamente do que estão falando, uma vez que também já
tiveram uma infância. Note-se que esse “saber” indica a percepção
da existência de uma avaliação compartilhada sobre alguns elementos
relacionados ao passado. Os textos das letras são, em quase sua
totalidade, bastante reduzidos. Tal fato, longe de se caracterizar como
uma desvantagem, proporciona a análise de um material que se condiciona
quase exclusivamente ao que não pode deixar de ser dito, mesmo num
pequeno texto, sobre determinado assunto. Não estamos afirmando que as
letras seguem uma lógica do clichê, até porque os próprios
compositores nos mostram freqüentemente que sempre é possível inovar em
temas considerados até então esgotados. O que a análise de letras
oferece, segundo nosso entendimento, é a identificação mesma dos
elementos partilhados na avaliação de um determinado tema.
De
fato, se através da simplificação e da esquematização o conteúdo
memorizado pode ser organizado para formar o passado como um todo coerente
e articulado (Fentress e Wickham, s/d), é possível, através da
identificação dos elementos mais constantes nos discursos dos
memorialistas, apontar quais desses elementos também podem ser submetidos
mais facilmente a esse processo de esquematização.
Como
mencionamos anteriormente, as letras devem conter um máximo de informações
possível em texto que, na maioria das vezes, é pequeno. Assim, pode-se
admitir que as diferentes seqüências/ estruturas que compõem as letras,
ao mesmo tempo em que possuem uma organização interna bastante definida,
articulam-se de modo também recorrente. Tal fato possibilita que uma
mesma letra descreva elementos da infância, como imagens e sons, à
medida que traça um significado geral desses elementos a partir da ótica
de quem lembra. Num sentido mais específico, que é o da própria
organização do conteúdo da memória, vale a pena apontarmos que não há
possibilidade de se afirmar, apesar da admissão de que as estruturas do
discurso possuem uma lógica interna, a existência de elementos puros na
recordação. O caráter eminentemente multi-referencial das letras,
conforme demonstrado nas Redes de Conteúdos, confirma o que estamos
afirmando. Ao falar sobre a infância de uma forma saudosa o compositor
evoca os elementos que, partilhados socialmente, precisam ser ditos a fim
de que o discurso saudoso se caracterize como tal. É assim que se
considera possível que sentimentos, sons e imagens, ainda que pareçam
sob determinado ponto de vista diferentes coisas, possam se misturar - e
é necessário que se misturem freqüentemente. Tal característica só
encontra viabilidade se considerarmos que tanto o sentimento, quanto
imagens e sons devem se transformar em conceitos a fim de que sejam
verbalizados em narrativas da memória. Nessa direção é possível se
pensar em encadeamentos de elementos fixados socialmente constituindo padrões
de histórias. É a utilização desse encadeamento no próprio ato de
narrar lembranças um fator que pode também atuar na organização da memória.
Para Fentress e Wickhan (s/d), a função primordial da palavra num
contexto de transmissão essencialmente oral de histórias é o de
encadear imagens, constituindo-se a própria história numa “espécie de
contentor natural de memória, uma maneira de seqüenciar um conjunto de
imagens, através de conexões lógicas e semânticas, numa forma de si fácil
de reter na memória” (p. 70). Sobretudo nesse sentido palavra e imagens
devem ser consideradas como estreitamente relacionadas.
Pelos
nossos dados é possível afirmar, como fazem os autores acima citados,
que não partilhamos somente os elementos recordados, mas os partilhamos
numa seqüência que deve também ser comum a fim de que a história
contada se caracterize como essencialmente o relato de uma infância
saudosa. Assim, aprendemos socialmente, além do que se deve lembrar com
saudade, como transmitir essa lembrança. Conteúdo lembrado e articulação
verbal desse conteúdo são amalgamados de tal forma que ao mesmo tempo em
que a verbalização organiza as lembranças, a partilha de conteúdos e
da forma de encadeá-los condiciona a narrativa saudosa. Nesse sentido, é
possível afirmar que a caracterização de uma letra como saudosa
prescinde da presença do vocábulo saudade,
uma vez que é a menção a determinados elementos mais gerais e
partilhados que assim a definem. O fato da presença do vocábulo saudade
não ser condição imprescindível para a caracterização de um discurso
sobre a infância como saudosista não significa que tal presença não
tenha função particular nas narrativas sobre lembranças.
Falar
saudade explicita uma concepção
da lembrança como carregada de sentimento. Dessa forma, o que se encontra
nas letras das canções não é apenas um conjunto partilhado de imagens
e sons: a narrativa saudosa sobre a infância é sustentada também pela
idéia de partilha de sentimentos. Só assim pode-se entender, em parte,
porque o vocábulo saudade
adquire essa particularidade que o distingue de forma tão significativa
na língua portuguesa. Como acima já dissemos, deve-se admitir então sua
presença não como indício de um discurso alienado ou retrógrado, mas
com o sentido de afirmar: “essa lembrança, no conjunto total de minhas
recordações, faz diferença para mim”. O próprio narrador, enquanto
fala, pontua o discurso com um indicativo de valor afetivo que
tradicionalmente tem sido desprezado.
Não
estamos desconsiderando a possibilidade de que esta concepção da infância
como sempre feliz, que está presente em diversas produções culturais
(Brites, 2000; Lajolo, 2003), tenha o papel de tornar relativo, pelo menos
para determinado grupo, as condições precárias de vida às quais estão
submetidas grandes parcelas das crianças do país. Entretanto, para o
nosso caso em particular, ter saudade da infância pode ser considerado
como fator que irmana compositores e, nesse nível, possibilita a percepção
da formação de um grupo, uma vez que possuem lembranças comuns
coerentes sobre seu próprio passado e, como vimos, também uma percepção
do seu presente como menos feliz. Na direção de um discurso comum
pode-se admitir que o critério de “veracidade” dos fatos lembrados
tende à não particularização dos elementos mencionados a fim de que a
memória de cada compositor concorde com a de seus pares e sustente um
agrupamento de lembranças que necessita ser coerente.
A
percepção mais geral de que, ainda que pobre, a infância é um período
especial é, certamente, também produto da luta travada pela constituição
de conteúdos da Memória Social. Entretanto, aceitar tal fato implica,
sobretudo, a busca do entendimento sobre a maneira como tal constituição
se dá no nível do discurso cotidiano, inclusive no daqueles menos
favorecidos nesse embate. A infância feliz, assim, não pode ser
entendida como uma percepção estática da realidade, uma vez que a própria
organização da Memória obriga a uma comparação, muitas vezes penosa,
entre essa concepção e as situações concretas do presente de quem
narra a infância e daqueles que estão ao seu redor. É nesse sentido que
o discurso da saudade aponta um quadro mais geral, na fala do
memorialista, que expõe um critério de valor significativo das lembranças
e, portanto, também do presente do narrador. Tal critério não pode ser
desconsiderado ou tomado de forma apressada como caracterizador de uma
fala conformista, sob pena de ocultarmos mais uma vez, pela coerência do
nosso discurso, o que as próprias pessoas estão dizendo que é realmente
importante.
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FONOGRAMAS
CITADOS NO ARTIGO
Aquarela
Mineira – Parte 1 (Ary Barroso). Francisco Alves. Ary Barroso:
nossa homenagem, 100 anos, vol. 05. Revivendo RVCD-210. S/D. CD. (Ano de
lançamento do fonograma: 1950).
Barquinho
de papel (António Vieira). António Vieira. Compositor Popular.
Eldorado 278l05.2002.CD.
Bons
tempos (Raul Sampaio). Raul Sampaio. 50 anos depois... S.M. de
Cultura e Turismo de Cachoeiro de Itapemirim RSC-001.2001. CD
Chegou
a hora da fogueira (Lamartine Babo). Carmem Miranda e Mário Reis. Reminiscências
juninas. RCA/CAMADEN CALB 5047. S/D.
LP. (Ano
de lançamento do fonograma: 1933).
Ciranda
(Manuelito). Dércio Marques. Monjolear. Luz do sol/ Anjos da Terra
S/L 1996. CD.
Cirandinha
(Josino Medina). Pereira da Viola e Titane. Tawaraná. Lapa
CD038074. 1996. CD.
Doze anos (Chico Buarque). Chico
Buarque e Moreira da Silva. Ópera do Malandro. Philips 6349400.
1979. LP.
Eterno
Instante (Gê Lara). Gê Lara e Lemão. Herança. Zen Records
Z02079709. 1997. CD.
Garoto da Rua (René
Bittencourt). Augusto Calheiros. RCA/Victor
800496
Lado A. 1947. 78 RPM.
Meus
primeiros carnavais (Silvio Silva e Romeo Nunes). Dalva de Oliveira. Carnaval
1969 vol. 2. Odeon MOFB 3562. 1968. LP.
Olhando
o céu todo enfeitado (Assis valente). Francisco Alves. O rei da voz,
vol. 02. RCA/BMG 7432150217-2. S/D. CD. (Ano de lançamento do fonograma:
1935).
Olinda,
Cidade Eterna (Capiba). Capiba e Paulo Molin.
Continental 16215 Lado A. 1950. 78 RPM.
Saudades
do sertão (Luiz António e Damião da Silva). Luiz António e Damião da
Silva. Cantiga Sertaneja 2. Projeto Cantiga Sertaneja TCD-60028.
2000. CD.
Observação:
Os fonogramas “Aquarela Mineira – Parte 1” (Ary Barroso), “Chegou
a hora da fogueira” (Lamartine Babo), “Garoto
da Rua” (René Bittencourt), “Olhando
o céu todo enfeitado” (Assis valente)
e “Olinda, Cidade Eterna” (Capiba) estão
disponíveis no site do Instituto Moreira Sales (www.ims.com.br).
Para escutar as faixas, é necessário entrar no site e clicar Acervos
_ pesquisa on-line. Em seguida, a opção Entrar. Escolha o
item Músicas. Quando a página de consulta estiver na tela, digite
o título da canção.
Notas
(1)
Pode-se perceber também
essa diferenciação numa comparação ainda que superficial entre as memórias
de infância de Jorge Amado (1996), José Lins do Rego (1993), Rubem Braga
(1997), e aquelas descritas por Lya Luft em Mar de dentro (2002). Para as particularidades das memórias de
Graciliano Ramos (1976), relacionadas fortemente aos ambientes doméstico
e escolar, ver, por exemplo, Lemos (2002) e Souza (2001). [volta]
(2) O
Alceste realiza o cálculo de três cruzamentos (Classificação Hierárquica
Descendente -CHD): a) Todas as UCE (trechos
do corpus definidos
pelo Alceste segundo critérios de tamanho do texto - número de palavras
analisadas - e pontuação) x todas as formas reduzidas (os vocábulos
“amores”, “amoroso” e “amor”, por exemplo, são transformados
na forma reduzida “amor+”); b) UC (conjunto de UCE sucessivas que
contenha um determinado número de palavras diferentes fixado pelo
programa, segundo o número total de palavras analisadas no corpus)
tamanho 1 x formas reduzidas selecionadas; c) UC tamanho 2 x formas
reduzidas selecionadas. Uma matriz é formada para cada um desses
cruzamentos, onde os valores 0 e 1 indicam, respectivamente, ausência ou
presença de determinada palavra em uma UCE ou UC. “O conjunto total de
unidades contextuais na matriz de indicadores inicial (unidades
contextuais por palavras) constitui a primeira classe. O objetivo do próximo
passo é conseguir uma divisão dessa classe em duas, que separem, da
maneira mais nítida possível, as classes resultantes, de tal modo que as
duas classes contenham diferentes vocabulários e, no caso ideal, não
contenham nenhuma palavra sobreposta” (Kronberger e Wagner, 2002, p.
429). O procedimento é continuamente efetuado até que não resulte em
novas classes. [volta]
(3)
Os títulos dados aos pólos foram inspirados por títulos de obras de
Carlos Drummond de Andrade e Macedo Miranda, respectivamente. [volta]
(4) Como
critérios para a escolha das categorias a serem utilizadas nesse terceiro
momento: a) Freqüência de citações; b) Temas tradicionalmente
relacionados à saudade, como o amor, o “querer voltar”, o lugar do
qual se partiu e o sofrimento de quem lembra; c) Para o caso da inclusão
de “Festas”, a formação no Alceste de uma Classe especificamente
sobre as festas de São João. [volta]
Nota
sobre os autores
Adriano
Roberto Afonso
de Nascimento é Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Universidade Federal do Espírito Santo, Docente do Departamento de
Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais. Endereço para
contato: Departamento de Psicologia, Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Av. Antônio Carlos, 6.627,
Campus Pampulha, Belo Horizonte/MG. CEP: 31270-901. E-mail:
fgian@uol.com.br
Paulo
Rogério Meira Menandro
é Doutor em Psicologia – USP/SP, Docente do Departamento de Psicologia
Social e do Desenvolvimento e do Programa de Pós-Graduação em
Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo. Endereço para
contato: Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento,
Universidade Federal do Espírito Santo, Av. Fernando Ferrari, 514,
Goiabeiras, Vitória/ES. CEP: 29075-910. E-mail:
paulomenandro@uol.com.br
Data
de recebimento: 28/07/2005
Data de aceite: 01/09/2005
Memorandum
9, out/2005
Belo Horizonte: UFMG; Ribeirão Preto: USP
http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/a09/nascimenan02.htm