No dia 18 de janeiro
de 2004, faleceu em Saint Paul (Minnesota, EUA), Josef Brožek, um grande
homem e um grande cientista. “O meu desejo principal é ser útil”:
era uma exigência que ele afirmava freqüentemente. O relato de sua longa e
fecunda vida documenta a realização plena deste seu desejo. E se, como ele
mesmo dizia, “jamais temos repouso: o presente é perpétuo”, a longa
existência, por ele intensamente vivida, realizou este ideal.
Josef Brožek foi
protagonista de uma dramática e belíssima história de vida. Nasceu em
1913, na cidade de Melnik, na Boêmia, atual República Tcheca. Viveu sua
juventude em Varsóvia (Polônia), entre 1913 e 1915 e junto com sua família
foi deportado na Sibéria (1915-1920). Em junho de 1937, tornou-se PhD pela
Charles University, em Praga, na Tchecoslováquia, com uma tese
sobre “Memória: suas medidas e sua estrutura”. Atuou como psicólogo nesse
país, na área da orientação vocacional e da psicologia industrial, nos
anos de 1938 e 1939. Em 1939, devido aos inícios da Segunda Guerra
Mundial, emigrou para os Estados Unidos e naturalizou-se americano em
1945. Continuou sua atividade de pesquisador e assumiu diversos cargos
universitários na Europa e EUA, desde 1936, entre eles, a partir de 1941,
como pesquisador no Laboratório de Higiene Fisiológica, onde desenvolveu
pesquisas sobre os efeitos da desnutrição no comportamento humano, e no
campo da psicologia do trabalho; e no M.I.T. (Massachusetts Institute
of Technology), em 1980-1981. A partir de 1958, foi nomeado professor
de Psicologia e Pesquisador da Lehigh University, em Bethlehem,
Pennsylvania, nos Estados Unidos.
Autor de
vários trabalhos de pesquisa, publicados em inúmeros artigos e livros,
destacam-se os relativos a Comportamento na Desnutrição e História da
Psicologia. Com efeito, Josef Brožek foi um dos pioneiros na pesquisa em
História da Psicologia Moderna. Em 1965, participou da criação da Divisão
26 da American Psychological Association, dedicada à História da
Psicologia, e da organização do periódico Journal of the History of the
Behavioral Sciences, que se tornou um dos principais veículos de
difusão da pesquisa científica na área. Até recentemente Brožek integrava
o corpo editorial desse periódico. Para colaborar na institucionalização
do campo de estudos da História da Psicologia, Brožek organizou, em 1966,
juntamente com R.I. Watson, um curso de verão na área, destinado a
professores, na Universidade de New Hampshire. O curso foi repetido mais
tarde na Universidade de Lehigh, em 1971. A partir desse esforço em reunir
os historiadores de psicologia, surgiu em 1968 a International Society
for the History of Behavioral and Social Sciences, mais tarde
denominada Cheiron. Em 1969, Brožek contou com a colaboração de
Mary Henle, da Universidade de Princeton, historiadora da psicologia da
Gestalt, na organização do primeiro congresso da nova sociedade.
Na área da
História da Psicologia, Brožek realizou inúmeras pesquisas em arquivos e
bibliotecas dos EUA e da Europa, especialmente da Europa Oriental. São
trabalhos historiográficos originais quanto a conteúdos e métodos. Através
da organização e participação em congressos, de visitas científicas e de
contatos epistolares mantidos com fidelidade até o fim de sua vida com
pesquisadores do mundo inteiro, incluindo jovens em formação nessa área de
estudos, tornou a historiografia da psicologia um domínio internacional,
envolvendo nesta construção não apenas estudiosos de países de língua
anglo-saxônica, mas também de idiomas eslavos e latinos, inclusive o
Brasil. Suas visitas entre nós foram determinantes para a criação e
articulação do grupo de historiadores brasileiros da psicologia, bem como
para a publicação de trabalhos na área. Ele mesmo encarregou-se, em
colaboração com M. Massimi, da preparação da versão brasileira da
“Historiografia da Psicologia Moderna” (1998), que considerava a “jóia da
coroa” (crowning glory) de sua colaboração com os pesquisadores
brasileiros.
A primeira
visita ao Brasil ocorreu no Rio de Janeiro, a convite do Professor Antonio
Gomes Penna, organizador do Primeiro Seminário Latino-Americano de
História da Psicologia (1988). Na ocasião, Brožek fez também uma breve
visita a São Paulo, a convite da Professora Maria do Carmo Guedes, da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A segunda visita ocorreu em
1996, quando esteve em Ribeirão Preto (SP), a convite da Professora Marina
Massimi, para lecionar curso de História da Psicologia para pós-graduandos
e pesquisadores, e em Teresópolis (RJ), onde participou com muito
interesse, no âmbito do Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico da
Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia, da reunião
em que ocorreu a consolidação de nosso grupo de trabalho em História da
Psicologia. Este grupo reúne pesquisadores brasileiros na área, e
permanece ativo até hoje.
Em 1997,
Brožek visitou novamente nosso país, desta vez começando por São Paulo,
onde participou do Congresso Internacional da Sociedade Interamericana de
Psicologia. Nesse Congresso proferiu uma conferência memorável, sobre o
desenvolvimento do campo da historiografia da psicologia ao redor do
mundo, e de uma mesa-redonda, em que destacou o desenvolvimento de estudos
psicológicos na Tchecoslováquia (entre 1989 e 1992) e na República Tcheca
(a partir de 1993), após a chamada “Revolução de Veludo” (“Velvet
Revolution”), que encerrou o período do totalitarismo e reintroduziu a
democracia na região. Em seguida, viajou a Belo Horizonte, para conhecer o
Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA) e o grupo de
pesquisa que, na Universidade Federal de Minas Gerais, empreendia a tarefa
de organização do acervo Antipoff. Encantado com a riqueza dos materiais
que compõem esse acervo e com a trajetória de vida de Helena Antipoff,
que, como ele, havia deixado a Europa Oriental, passando pela Europa
Ocidental para desenvolver intenso trabalho em psicologia e educação no
continente americano, Brožek decidiu doar parte de sua biblioteca pessoal
para o Centro. A partir dessa doação, que contem uma preciosa coleção de
livros, periódicos, teses e manuscritos do autor, além de fotografias e
slides, o acervo do CDPHA se ampliou, e novos temas de pesquisa vieram a
ser explorados pela equipe, em cuja orientação Brožek participou com
grande disponibilidade. O acervo doado por Brožek está disponível na Sala
Helena Antipoff, na Biblioteca Central da UFMG, juntamente com o acervo do
CDPHA, constituindo os “Arquivos UFMG de História da Psicologia no
Brasil”.
Um dos
resultados da sua colaboração com o Grupo de História da Psicologia da
ANPEPP e o CDPHA foi a publicação, em 2001, do Dicionário Biográfico da
Psicologia no Brasil, editado com o apoio do Conselho Federal de
Psicologia, no qual Brožek figura como co-autor. Como testemunho de sua
inesgotável energia, nosso amigo enviou recentemente ao Journal of the
History of the Behavioral Sciences resenha do Dicionário,
publicada no vol. 39, n. 4, outono 2003, na qual ressalta as qualidades da
obra como referência para a História da Psicologia no Brasil.
Da imensa
“obra” de Josef Brožek – que abraça na área científica o estudo das
relações entre Desnutrição e Comportamento e a consolidação da
Historiografia da Psicologia no mundo – cabe destacar o método de
trabalho, o qual baseava-se inteiramente em tecer relações: relações entre
países e áreas geográficas distantes – como se evidencia em suas inúmeras
pesquisas desenvolvidas em diversas áreas do mundo e possibilitadas pelo
seu grande conhecimento dos idiomas; e relações entre pessoas – através da
promoção de cursos, simpósios e eventos científicos e do fortalecimento de
associações, sociedades e grupos de trabalho; mas sobretudo pela amizade,
que ele mantinha através de visitas e de contatos epistolares mantidos com
fidelidade até o fim de sua vida com pesquisadores do mundo inteiro,
incluindo jovens em formação em sua área de estudos. A amizade fiel,
generosa e atenta com jovens pesquisadores, cultivada com respeito,
simpatia e abertura extraordinárias era, de fato, um elemento integrante
do método de trabalho de Brožek.
Sua grande
disponibilidade é evidenciada por tantos exemplos: entre eles, contamos um
do qual fomos testemunhas. Octogenário, Brožek aprendeu a língua
portuguesa com o intuito de responder ao nosso convite para ministrar uma
disciplina junto ao curso de psicologia na Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras de Ribeirão Preto. Foi assim que, no mês de maio de
1996, lecionou uma disciplina introdutória de historiografia da
psicologia, para os alunos do primeiro ano de curso. Foi uma experiência
inesquecível para todos: aquele senhor alto e simpático, que falava um
correto português, recitava poesias, tocava violoncelo e guitarra e
assobiava músicas no meio de lições claras e profundas, fascinou a todos
com seu sorriso cativante e sua irresistível e intensa humanidade,
juntamente a uma incomparável competência histórica e historiográfica. O
curso por ele proferido e redigido em português, foi editado nesta revista
(Brožek e Massimi, 2001, 2002, 2002a).
Em
correspondência de 8.7.1996, comentando o curso de Ribeirão Preto e
planejando novas colaborações com os estudantes presentes, Brožek
afirmava: “I love to work with students, be it directly or at a
distance, and I always did. In fact: I ‘feel’ to be
more a ‘student’ than a ‘professor’!”
(Gosto de trabalhar com estudantes, diretamente ou à distância, e sempre
gostei. De fato, sinto-me mais um estudante que um professor). Na mesma
correspondência, ele parece querer explicar porque faz planos que incluem
os estudantes e professores com quem interagiu no Brasil: “To me,
research has always been a collaborative endeavor” (Para mim, a
pesquisa sempre foi um empreendimento colaborativo).
Esta postura
aberta e disponível – que lembra a pedagogia de Paulo Freire – é que
tornava especialmente prazeroso o trabalho conjunto com Brožek. E foi
seguindo esse caminho que ele tornou a historiografia da psicologia um
domínio internacional, envolvendo nesta construção não apenas estudiosos
de países de língua anglo-saxônica, mas também de idiomas eslavos e
latinos, como o Brasil.
Para Brožek, a
dedicação ao estudo, ao ensino e à difusão da história da psicologia
nascia da consciência de que, como ele mesmo nos disse naquela ocasião
todos somos
herdeiros. Os nossos conhecimentos, a nossa força (ou fraqueza) econômica,
política, intelectual e moral - todas essas coisas nos vêm de gerações
anteriores. Nunca esquecerei o comentário de um professor de sociologia
que dizia: nossa contribuição pessoal aos conhecimentos humanos é de peso
tão leve que um pássaro pequenino poderia levá-la embora. O estudo da
história das ciências deve nos ensinar a virtude da modéstia. Além do
mais, ajuda-nos a nos orientarmos de modo mais rápido e inteligente no
presente e antecipar o futuro (Brožek e Massimi, 2001, p.74).
Citando o artista
francês J. Braque, afirmava que “o conhecimento do passado faz possível a
revelação do presente”. Todavia, acreditava, “a realidade não se
revela se não for iluminada por um raio poético”.
O raio da poesia da
vida, de fato, iluminava sua pessoa e sua atuação: era esta luz que o
tornava capaz de descobrir em cada ser humano, em cada jovem, seu valor,
sua dignidade, intuindo talentos às vezes escondidos e acompanhando seu
desvelar-se. Era esta luz que tornava sua humanidade intensamente amiga de
todos e atraída por tudo que é belo, verdadeiro e bom: a pesquisa, a
música, a boa comida, o cheiro do café e o sabor da fruta, o prazer da
arte e o encanto das flores e das folhas que amava contemplar. Um homem
grande, cujo coração sabia conter as dimensões universais, demonstrando
sensibilidade e empenho diante dos graves problemas do mundo, mas que
sabia também como abraçar cada pessoa que encontrava e acolhia com
cativante simpatia e simplicidade.
Referências
bibliografias
Brožek, J.
(08/07/1996).
Correspondência a Regina Campos, inédita.
Brožek,
J. (1998). International Historiography of Psychology. The British
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Brožek, J.
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(2001) Curso de
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Campos, R.H.F.
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Massimi, M. (1984). The origins of modern psychology: explorations in the
old and the new world. Em Psychology in its Historical Context:
essays in honor Prof. Josef Brozek.
(pp. 221-228)
Valencia: s/n.
Nota sobre as
autoras
Marina Massimi
é Livre Docente e trabalha junto ao Departamento de Psicologia e Educação
na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo,
Campus de Ribeirão Preto, Brasil. Especialista na área de História das
Idéias Psicológicas na Cultura Luso-Brasileira. Contatos:
mmarina@ffclrp.usp.br
Regina Helena de
Freitas Campos
é professora de Psicologia da Educação e História da Psicologia na
Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, bolsista de
pesquisa do CNPq, presidente do Centro de Documentação e Pesquisa Helena
Antipoff. Contato: Rua Professor Saul Macedo 111 – Belvedere. 30320-490
Belo Horizonte, MG, Brasil. E-mail:
regihfc@terra.com.br
Memorandum 6, abril/2004
Belo
Horizonte: UFMG; Ribeirão Preto: USP.
http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos06/nota01.htm