Massimi, M. & Campos, R.H.F. (2004). Josef Brožek: história e memória (1913-2004). Memorandum, 6, 128-131. Retirado em / / da World Wide Web: http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos06/nota01.htm

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Nota

 

Josef Brožek: história e memória
(1913-2004)

 

Josef Brožek: history and memory (1913-2004)

 

Marina Massimi

Universidade de São Paulo

 

Regina Helena de Freitas Campos

Universidade Federal de Minas Gerais

Brasil

 

No dia 18 de janeiro de 2004, faleceu em Saint Paul (Minnesota, EUA), Josef Brožek, um grande homem e um grande cientista. “O meu desejo principal é ser útil”: era uma exigência que ele afirmava freqüentemente. O relato de sua longa e fecunda vida documenta a realização plena deste seu desejo. E se, como ele mesmo dizia, “jamais temos repouso: o presente é perpétuo”, a longa existência, por ele intensamente vivida, realizou este ideal.

Josef Brožek foi protagonista de uma dramática e belíssima história de vida. Nasceu em 1913, na cidade de Melnik, na Boêmia, atual República Tcheca. Viveu sua juventude em Varsóvia (Polônia), entre 1913 e 1915 e junto com sua família foi deportado na Sibéria (1915-1920). Em junho de 1937, tornou-se PhD pela Charles University, em Praga, na Tchecoslováquia, com uma tese sobre “Memória: suas medidas e sua estrutura”. Atuou como psicólogo nesse país, na área da orientação vocacional e da psicologia industrial, nos anos de 1938 e 1939. Em 1939, devido aos inícios da Segunda Guerra Mundial, emigrou para os Estados Unidos e naturalizou-se americano em 1945. Continuou sua atividade de pesquisador e assumiu diversos cargos universitários na Europa e EUA, desde 1936, entre eles, a partir de 1941, como pesquisador no Laboratório de Higiene Fisiológica, onde desenvolveu pesquisas sobre os efeitos da desnutrição no comportamento humano, e no campo da psicologia do trabalho; e no M.I.T. (Massachusetts Institute of Technology), em 1980-1981. A partir de 1958, foi nomeado professor de Psicologia e Pesquisador da Lehigh University, em Bethlehem, Pennsylvania, nos Estados Unidos.

Autor de vários trabalhos de pesquisa, publicados em inúmeros artigos e livros, destacam-se os relativos a Comportamento na Desnutrição e História da Psicologia. Com efeito, Josef Brožek foi um dos pioneiros na pesquisa em História da Psicologia Moderna. Em 1965, participou da criação da Divisão 26 da American Psychological Association, dedicada à História da Psicologia, e da organização do periódico Journal of the History of the Behavioral Sciences, que se tornou um dos principais veículos de difusão da pesquisa científica na área. Até recentemente Brožek integrava o corpo editorial desse periódico. Para colaborar na institucionalização do campo de estudos da História da Psicologia, Brožek organizou, em 1966, juntamente com R.I. Watson, um curso de verão na área, destinado a professores, na Universidade de New Hampshire. O curso foi repetido mais tarde na Universidade de Lehigh, em 1971. A partir desse esforço em reunir os historiadores de psicologia, surgiu em 1968 a International Society for the History of Behavioral and Social Sciences, mais tarde denominada Cheiron. Em 1969, Brožek contou com a colaboração de Mary Henle, da Universidade de Princeton, historiadora da psicologia da Gestalt, na organização do primeiro congresso da nova sociedade.

Na área da História da Psicologia, Brožek realizou inúmeras pesquisas em arquivos e bibliotecas dos EUA e da Europa, especialmente da Europa Oriental. São trabalhos historiográficos originais quanto a conteúdos e métodos. Através da organização e participação em congressos, de visitas científicas e de contatos epistolares mantidos com fidelidade até o fim de sua vida com pesquisadores do mundo inteiro, incluindo jovens em formação nessa área de estudos, tornou a historiografia da psicologia um domínio internacional, envolvendo nesta construção não apenas estudiosos de países de língua anglo-saxônica, mas também de idiomas eslavos e latinos, inclusive o Brasil. Suas visitas entre nós foram determinantes para a criação e articulação do grupo de historiadores brasileiros da psicologia, bem como para a publicação de trabalhos na área. Ele mesmo encarregou-se, em colaboração com M. Massimi, da preparação da versão brasileira da “Historiografia da Psicologia Moderna” (1998), que considerava a “jóia da coroa” (crowning glory) de sua colaboração com os pesquisadores brasileiros.

A primeira visita ao Brasil ocorreu no Rio de Janeiro, a convite do Professor Antonio Gomes Penna, organizador do Primeiro Seminário Latino-Americano de História da Psicologia (1988). Na ocasião, Brožek fez também uma breve visita a São Paulo, a convite da Professora Maria do Carmo Guedes, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A segunda visita ocorreu em 1996, quando esteve em Ribeirão Preto (SP), a convite da Professora Marina Massimi, para lecionar curso de História da Psicologia para pós-graduandos e pesquisadores, e em Teresópolis (RJ), onde participou com muito interesse, no âmbito do Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia, da reunião em que ocorreu a consolidação de nosso grupo de trabalho em História da Psicologia. Este grupo reúne pesquisadores brasileiros na área, e permanece ativo até hoje.

Em 1997, Brožek visitou novamente nosso país, desta vez começando por São Paulo, onde participou do Congresso Internacional da Sociedade Interamericana de Psicologia. Nesse Congresso proferiu uma conferência memorável, sobre o desenvolvimento do campo da historiografia da psicologia ao redor do mundo, e de uma mesa-redonda, em que destacou o desenvolvimento de estudos psicológicos na Tchecoslováquia (entre 1989 e 1992) e na República Tcheca (a partir de 1993), após a chamada “Revolução de Veludo” (“Velvet Revolution”), que encerrou o período do totalitarismo e reintroduziu a democracia na região. Em seguida, viajou a Belo Horizonte, para conhecer o Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA) e o grupo de pesquisa que, na Universidade Federal de Minas Gerais, empreendia a tarefa de organização do acervo Antipoff. Encantado com a riqueza dos materiais que compõem esse acervo e com a trajetória de vida de Helena Antipoff, que, como ele, havia deixado a Europa Oriental, passando pela Europa Ocidental para desenvolver intenso trabalho em psicologia e educação no continente americano, Brožek decidiu doar parte de sua biblioteca pessoal para o Centro. A partir dessa doação, que contem uma preciosa coleção de livros, periódicos, teses e manuscritos do autor, além de fotografias e slides, o acervo do CDPHA se ampliou, e novos temas de pesquisa vieram a ser explorados pela equipe, em cuja orientação Brožek participou com grande disponibilidade. O acervo doado por Brožek está disponível na Sala Helena Antipoff, na Biblioteca Central da UFMG, juntamente com o acervo do CDPHA, constituindo os “Arquivos UFMG de História da Psicologia no Brasil”.

Um dos resultados da sua colaboração com o Grupo de História da Psicologia da ANPEPP e o CDPHA foi a publicação, em 2001, do Dicionário Biográfico da Psicologia no Brasil, editado com o apoio do Conselho Federal de Psicologia, no qual Brožek figura como co-autor. Como testemunho de sua inesgotável energia, nosso amigo enviou recentemente ao Journal of the History of the Behavioral Sciences resenha do Dicionário, publicada no vol. 39, n. 4, outono 2003, na qual ressalta as qualidades da obra como referência para a História da Psicologia no Brasil.

Da imensa “obra” de Josef Brožek – que abraça na área científica o estudo das relações entre Desnutrição e Comportamento e a consolidação da Historiografia da Psicologia no mundo – cabe destacar o método de trabalho, o qual baseava-se inteiramente em tecer relações: relações entre países e áreas geográficas distantes – como se evidencia em suas inúmeras pesquisas desenvolvidas em diversas áreas do mundo e possibilitadas pelo seu grande conhecimento dos idiomas; e relações entre pessoas – através da promoção de cursos, simpósios e eventos científicos e do fortalecimento de associações, sociedades e grupos de trabalho; mas sobretudo pela amizade, que ele mantinha através de visitas e de contatos epistolares mantidos com fidelidade até o fim de sua vida com pesquisadores do mundo inteiro, incluindo jovens em formação em sua área de estudos. A amizade fiel, generosa e atenta com jovens pesquisadores, cultivada com respeito, simpatia e abertura extraordinárias era, de fato, um elemento integrante do método de trabalho de Brožek.

Sua grande disponibilidade é evidenciada por tantos exemplos: entre eles, contamos um do qual fomos testemunhas. Octogenário, Brožek aprendeu a língua portuguesa com o intuito de responder ao nosso convite para ministrar uma disciplina junto ao curso de psicologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto. Foi assim que, no mês de maio de 1996, lecionou uma disciplina introdutória de historiografia da psicologia, para os alunos do primeiro ano de curso. Foi uma experiência inesquecível para todos: aquele senhor alto e simpático, que falava um correto português, recitava poesias, tocava violoncelo e guitarra e assobiava músicas no meio de lições claras e profundas, fascinou a todos com seu sorriso cativante e sua irresistível e intensa humanidade, juntamente a uma incomparável competência histórica e historiográfica. O curso por ele proferido e redigido em português, foi editado nesta revista (Brožek e Massimi, 2001, 2002, 2002a).

Em correspondência de 8.7.1996, comentando o curso de Ribeirão Preto e planejando novas colaborações com os estudantes presentes, Brožek afirmava: “I love to work with students, be it directly or at a distance, and I always did. In fact: I ‘feel’ to be more a ‘student’ than a ‘professor’! (Gosto de trabalhar com estudantes, diretamente ou à distância, e sempre gostei. De fato, sinto-me mais um estudante que um professor). Na mesma correspondência, ele parece querer explicar porque faz planos que incluem os estudantes e professores com quem interagiu no Brasil: “To me, research has always been a collaborative endeavor” (Para mim, a pesquisa sempre foi um empreendimento colaborativo).

Esta postura aberta e disponível – que lembra a pedagogia de Paulo Freire – é que tornava especialmente prazeroso o trabalho conjunto com Brožek. E foi seguindo esse caminho que ele tornou a historiografia da psicologia um domínio internacional, envolvendo nesta construção não apenas estudiosos de países de língua anglo-saxônica, mas também de idiomas eslavos e latinos, como o Brasil.

Para Brožek, a dedicação ao estudo, ao ensino e à difusão da história da psicologia nascia da consciência de que, como ele mesmo nos disse naquela ocasião

todos somos herdeiros. Os nossos conhecimentos, a nossa força (ou fraqueza) econômica, política, intelectual e moral - todas essas coisas nos vêm de gerações anteriores. Nunca esquecerei o comentário de um professor de sociologia que dizia: nossa contribuição pessoal aos conhecimentos humanos é de peso tão leve que um pássaro pequenino poderia levá-la embora. O estudo da história das ciências deve nos ensinar a virtude da modéstia. Além do mais, ajuda-nos a nos orientarmos de modo mais rápido e inteligente no presente e antecipar o futuro (Brožek e Massimi, 2001, p.74).

Citando o artista francês J. Braque, afirmava que “o conhecimento do passado faz possível a revelação do presente”. Todavia, acreditava, “a realidade não se revela se não for iluminada por um raio poético”.

O raio da poesia da vida, de fato, iluminava sua pessoa e sua atuação: era esta luz que o tornava capaz de descobrir em cada ser humano, em cada jovem, seu valor, sua dignidade, intuindo talentos às vezes escondidos e acompanhando seu desvelar-se. Era esta luz que tornava sua humanidade intensamente amiga de todos e atraída por tudo que é belo, verdadeiro e bom: a pesquisa, a música, a boa comida, o cheiro do café e o sabor da fruta, o prazer da arte e o encanto das flores e das folhas que amava contemplar. Um homem grande, cujo coração sabia conter as dimensões universais, demonstrando sensibilidade e empenho diante dos graves problemas do mundo, mas que sabia também como abraçar cada pessoa que encontrava e acolhia com cativante simpatia e simplicidade.

 

Referências bibliografias

Brožek, J. (08/07/1996). Correspondência a Regina Campos, inédita.

 

Brožek, J. (1998). International Historiography of Psychology. The British Psychological Society, History and Philosophy Section. Newsletter 27, 30-35.

 

Brožek J. e Massimi M. (1998). Historiografia da psicologia moderna. São Paulo: Loyola.

 

Brožek, J. e Massimi, M. (ed.). (2001) Curso de Introdução à Historiografia da Psicologia: apontamentos para um curso breve. Memorandum, 1, 72-78. Retirado em 25/02/2004, do World Wide Web: http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos01/brozek01.htm.

 

Brožek, J. e Massimi, M. (ed.). (2002) Curso de Introdução à Historiografia da Psicologia: Apontamentos para um curso breve - parte segunda: Da Descrição à interpretação. Memorandum, 2, 103-109. Retirado em 25/02/2004 , do World Wide Web: http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos02/brozek02.htm.

 

Brožek, J. e Massimi, M. (ed.). (2002a) Curso de introdução à historiografia da psicologia: apontamentos para um curso breve - parte terceira. Memorandum, 3, 112-131. Retirado em 25/02/2004, do World Wide Web: http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos03/brozek04.htm.

 

Campos, R.H.F. (1996). História da Psicologia. Em Anais do VI Simpósio de pesquisa e intercâmbio científico. Tomo I. (pp. 179 a 183). Teresópolis: Anpepp.

 

Campos, R.H.F. (Ed.). (2001). Brozek. Dicionário biográfico da psicologia no Brasil: pioneiros. Rio de Janeiro: Imago.

 

Massimi, M. (1983). Marcus Marulus, i suoi maestri e la “Psychologia de ratione animae humanae”. Storia e critica della psicologia, 4 (1), 27-42.

 

Massimi, M. (1984). The origins of modern psychology: explorations in the old and the new world. Em Psychology in its Historical Context: essays in honor Prof. Josef Brozek. (pp. 221-228) Valencia: s/n.

 

 

Nota sobre as autoras
Marina Massimi
é Livre Docente e trabalha junto ao Departamento de Psicologia e Educação na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, Campus de Ribeirão Preto, Brasil. Especialista na área de História das Idéias Psicológicas na Cultura Luso-Brasileira. Contatos:
mmarina@ffclrp.usp.br

Regina Helena de Freitas Campos é professora de Psicologia da Educação e História da Psicologia na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, bolsista de pesquisa do CNPq, presidente do Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff. Contato: Rua Professor Saul Macedo 111 – Belvedere. 30320-490 Belo Horizonte, MG, Brasil. E-mail: regihfc@terra.com.br

Memorandum 6, abril/2004
Belo Horizonte: UFMG; Ribeirão Preto: USP.
http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos06/nota01.htm

 

 

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