Introdução
Nos últimos anos muitas páginas têm sido escritas sobre o
ato da leitura. Os historiadores e os historiadores da literatura,
derrubadas as fronteiras tradicionais de seus campos de estudos, vêm
dedicando pesquisas voltadas ao entendimento desse ato, com abordagens
diversas: dos enfoques mais literário-estéticos, que re-visitam as obras
através de seus públicos, estratificados ao longo dos séculos, aos estudos
de cunho mais antropológico, que procuram descobrir ritos individuais e
coletivos da leitura, até as fronteiras de uma demografia da distribuição
dos livros e dos leitores.
Conhecimento histórico, para ter um sentido hoje, teve e
tem que refletir sobre si próprio, para se dotar de significado, para
procurar ferramentas de exegese e crítica à realidade. E é exatamente
nessa busca de uma identidade, que se quer intelectual, que surge a
necessidade de se pensar o próprio conhecimento em sua vertente histórica,
como nos propomos aqui, através da abordagem de uma época e de uma visão
do mundo em evidente estado de mudança, entre Antiguidade e Idade Média.
Nessa passagem, imperceptível no sentir cotidiano, é possível destrinchar
heranças e novos horizontes, que ainda se confundiam e interagiam entre
elas, transformando-se: o resgate da reflexão intelectual de outros
momentos, de outras épocas, torna-se necessária para refletir sobre o
papel e o desempenho daquela parte de população que procura, como caminho,
o uso da textualidade escrita como instrumento estruturante de sua própria
existência, traço que permite identificar aquelas figuras que, no decorrer
do tempo se tornam o conjunto intelectual reconhecido daquele espaço e
tempo. Localizamos um momento e um espaço privilegiados: o ocidente de
tradição romana. Trata-se de uma área em que o registro histórico se
constitui, em um primeiro momento, no reconhecimento do valor da prática
da escrita como constitutiva de um conjunto de documentos portadores de
memórias que, feitas as distinções de método e crítica da exegese
documentária, estruturam a memória de poderes existentes e de suas
vertentes. Dentro dos estudos voltados à leitura e aos leitores, voltados
ao entendimento da distribuição e funcionalidade dos vários registros
textuais, tanto verbais como icônicos, ainda há um amplo espaço para a
releitura de “teóricos” do conhecimento e de sua organização, ao mesmo
tempo personagens atuantes dentro da efetiva estruturação da divisão e
classificação do registro de suporte desse conhecimento. Pretendemos,
nesse trabalho, analisar uma fonte escrita: trata-se do tratado de Flávio
Magno Aurélio Cassiodoro (s/d, tomus 70, p.1106-1150) De Institutione
Divinarum Litterarum, escrito no VI século d.C, como “manual de
instrução” da biblioteca de Vivarium.
Varias são, hoje, as razões de se voltar a essa fonte e
discuti-la: em primeiro lugar, a farta bibliografia que trata da história
das bibliotecas, quando se ocupa da Idade Média, cita ostensivamente este
tratado. Todavia, a referência, obrigatória, limita-se a sinalizar a
iniciativa de Cassiodoro de preservar e perpetuar a tradição clássica, por
meio das traduções, ao lado da transcrição dos manuscritos cristãos.
Livros de divulgação, como o recente best seller de Matthew Battles
(2003) revelam como essa fonte primária seja, na verdade ou
desconhecida ou citação de citação. Battles, por exemplo, mostra um grau
de desconhecimento notável desse autor (cf. Idem,
pp. 64-65)
e, todavia, seu livro alcança um público relativamente amplo de leitores
interessados no assunto histórico sobre livros e bibliotecas,
contribuindo, assim, à divulgação anacrônica da relação livros/leitores.
Ensaios como o de Pierre Riché, muito mais corretos do
ponto de vista da interpretação histórica e das referências, em sua busca
de uma panorâmica ampla da Idade Média, todavia, reduzem a importância que
esse autor teve na estruturação das camadas de leitores ao longo de dez
séculos (Riché, 2000; Basbanes, 1999). Para entender plenamente o peso que
esse tratado teve, tanto na concepção de biblioteca, mas, principalmente,
na concepção da leitura e do leitor, é necessário conhecermos algo sobre o
autor e sobre as reflexões dos principais pensadores de sua época em
relação à textualidade escrita, suas funções e seu público.
A obra de Cassiodoro e
suas influências
Flávio Magno Aurélio Cassiodoro, romano de origem síria,
nasceu na Calábria por volta de 485 e morreu por volta de 580. Em um
primeiro momento, foi conselheiro do rei Teodorico. Depois da reconquista
bizantina da Itália, passou do lado dos vencedores e se mudou para
Constantinopla. Em 555 voltou para suas terras, em Vivarium, onde edificou
um mosteiro dedicado a Santo Martinho, que se tornou centro de estudos com
a finalidade de adquirir um conhecimento mais aprofundado da Bíblia,
utilizando, para isso, sem limitação, as contribuições da cultura pagã e
da escola clássica. Em Vivarium, Cassiodoro criou o modelo de uma
comunidade monástica, em que os estudos bíblicos apoiavam-se na base de
uma harmoniosa colaboração de caráter espiritual e manual, e onde uma
dignidade especial era dada aos escribas. Eles enriqueciam com o trabalho
de suas mãos a preciosa biblioteca, coração do mosteiro, que conhecemos
melhor de qualquer outra em época anterior aos carolíngios, pelas
Institutiones. Em Vivarium, Cassiodoro e seus colaboradores, além de
resgatar para a latinidade medieval obras gregas, através da tradução,
criaram novas obras latinas cristãs. As Institutiones introduzem
uma época em suas primeiras linhas:
Cassiodoro, durante
o pontificado de Agapito, imaginou a criação de uma "faculdade teológica"
romana: uma instituição que teria a tarefa de contrastar o predomínio das
humanae litterae na instrução superior. Pedagogia tradicional e
estudo da Bíblia, reflexão espiritual e preocupações filológicas (ou mesmo
simplesmente gramaticais: a última obra de Cassiodoro [s/d, Patrologiae
Latinae, tomus 70, pp. 1239-1270], composta quando o autor tinha mais de
noventa anos, è um pequeno manual, o De Orthographia) são as
diretrizes ao longo das quais se moldam as atividades de Vivarium, um
mosteiro que, de fato, antecipa a estrutura organizativa e a função
cultural que as instituições monásticas assumirão de modo mais acentuado
ao longo dos séculos seguintes.
Após sua morte, a maioria dos livros foi, provavelmente,
destinada à biblioteca do Latrão e, em épocas diferentes, foram levados à
França e à Inglaterra, para serem copiados. Em particular, durante a época
da evangelização da Inglaterra, há referências, em autores notáveis como
Beda, às viagens dos abades ingleses para Roma, com a finalidade de se
abastecer de livros, muitos dos quais eram obras de gramática
(1). O
conhecimento dessa Arte era necessário ao entendimento da Vulgata,
em latim, língua que, nessas terras, não pertencia aos novos monges
convertidos. Os monges enviados por Gregório Magno, que evangelizam a
Inglaterra, levaram consigo livros, e o anglo-saxão Bento Biscop, que na
juventude fora para Roma, cria as bibliotecas de Wearmouth e de Jarrow,
com base nos manuscritos que levara consigo na volta de sua viagem. Graças
à biblioteca de Jarrow, Beda o venerável tornou-se um dos maiores letrados
da Alta Idade Média. É no contato com os livros clássicos, profanos e
sagrados, que adquiriu um estilo claro e pôde utilizar o latim em suas
obras históricas, científicas e escriturísticas. Beda formou Egberto,
arcebispo de York em 734, ano de nascimento de Alcuíno, que mais tarde
dirigiu a mesma escola, deixando uma espécie de catálogo de todos os
livros que possuía. Em 781 Alcuíno encontrou Carlos Magno em Parma,
constituindo um sodalício cultural entre os mais importantes da Idade
Média, que possibilitou a reorganização e a reunificação da informação
escrita naquela que é comumente chamada “Renascença Carolíngia”.
Pela especificidade dos interesses de Cassiodoro,
considera-se que muitas das obras levadas para a Inglaterra da biblioteca
do Latrão eram, originariamente, parte da biblioteca de Vivarium.
Dos dois livros que
compõem as De Institutione Divinarum Litterarum
-
manifesto cultural e, ao mesmo tempo, diário de trabalho compilado por
Cassiodoro em benefício dos próprios monges - aquele destinado a uma maior
difusão na Idade Média è o segundo, que contém um compêndio essencial das
artes liberais redigido na base de fontes destinadas a se tornarem cada
vez menos acessíveis. Mas, para o leitor moderno, resulta sem dúvida mais
fascinante o primeiro livro da obra, no qual Cassiodoro oferece uma
resenha dos livros conservados em Vivarium, tendo o cuidado de assinalar
aqueles provenientes de seu fundo pessoal e aqueles em grego, dispostos em
uma prateleira específica.
As Institutiones,
obra de amplidão notável, clara e, portanto, fácil de ser analisada e
comentada, por muito tempo não foi considerada marcante para a Idade
Média, pois não teve peso relevante na tradição espiritual monástica. O
plano de estudos de Cassiodoro, aparentemente, permaneceu uma espécie de
programa especulativo, sobre o qual nunca se refletiu e do qual nunca se
tirou inspiração, a não ser em época bem mais tardia, sem dúvida pela
influência de Alcuíno que, não por acaso, realizou sua formação como abade
de York.
Seguindo esse raciocínio, se a influência espiritual de
Cassiodoro é praticamente nula, em termos de projeto cultural sua figura é
bem mais relevante, merecendo, assim, algumas reflexões a mais do que o
costumeiro.
A palavra escrita no
cristianismo
A Igreja, ao longo de sua constituição, se articula na base
da palavra escrita. Podemos verificar como, a partir do século II há
muitas exortações à leitura, mas que desde o século III isso é cada vez
mais freqüente: por exemplo, vêem-se imposições da leitura das Escrituras
nas casas, para as famílias, no almoço e no jantar, antes de dormir e ao
acordar. Isso não parece funcionar muito: taedium verbi divini é
uma reclamação conhecida por Orígenes (cf. Harnack, 1912, p. 69.). As
mulheres preferem ler coisas mais leves (quem sabe, o romance popular
sobre um homem que, por um feitiço, se transforma em um asno de ouro?).
João Crisóstomo se desespera, quando pergunta “Quais de vocês lêem um
livro cristão em casa?”, e “vocês têm dados em casa, mas nenhum livro”
(citado por
Harnack,
1912, p. 85).
(2). Considerando alguns aspectos do mercado de livros no Império (cf. Kleberg, 1992 e Fedeli, 1998), os representantes da Igreja, que conhecem a
realidade do seu tempo, não teriam a ingenuidade de convidar à leitura sem
um mínimo de acesso possível ao material escrito. Parece que entre o II e
o III século da era Cristã um rolo de papiro padrão, vinte folhas, não
custava muito: a palavra de Deus, então, era relativamente acessível.
Certo, mas o número de alfabetizados era muito menor em relação aos dias
de hoje. Na verdade, o número de leitores não coincide necessariamente com
o numero de pessoas alfabetizadas. Nos primeiros tempos da Cristandade
havia um incentivo muito grande à aproximação com a palavra escrita. Além
disso, Igreja se organizou para divulgar, oralmente, seus ensinamentos,
que, todavia, se fundamentavam em escritos (e não somente o Velho e Novo
Testamento, mas as vidas dos mártires e dos santos eram uma produção
amplamente presente). Para facilitar o acesso ao conteúdo textual escrito,
existia a figura dos leitores, mas também a translação para a pregação,
os cantos e a iconografia. A partir do dado fundamental de que os cristãos
são o “Povo do Livro”, ou seja, de algo escrito, pode-se observar a
deslocação da leitura stricto sensu para outras formas de
textualidade. Aliás, isso se torna indispensável, pois também entre
aqueles que deveriam deter o conhecimento, assiste-se, após os primeiros
séculos da era cristã, a uma cada vez maior incapacidade de elaborar
questões abstratas.
Cesário de Arles, bispo de 503 a 543, chega a ser comparado
ao bispo Cipriano pela promoção de textos escritos. Ele sabe que já está
pregando em um deserto: sua tarefa é incentivar à leitura das Escrituras
em família, em voz alta, para todos, o que parece indicar uma certa
resistência: não se exorta a fazer o que é feito corriqueiramente. João
Crisóstomo, em um passo, imagina um reclamante, lhe dizendo: “Eu sou um
homem de negócios; não é minha ocupação ler a Bíblia [...] isso é coisa
para quem renunciou ao mundo e se devotou a uma vida soltaria no topo da
montanha”. Também há respostas tipo “Não somos monges” (citado por Harnack,
1912, p. 118.). A degradação do paradigma cultural e das estruturas não
são novidades, mas qual é a solução? Gramáticos, pedagogos, enfim, aqueles
que se encontram seriamente preocupados com o declínio das estruturas
culturais do Império tardio, procuram uma saída. E pouco importa se
cristãos ou pagãos: a consciência é que não se pode perder aquele
conhecimento, porque em algum momento, algo nele funcionou em estabelecer
as regras de um sistema. É um momento de compêndios: se os estudantes,
clérigos ou leigos pouco importa, não lêem os clássicos, então que os
clássicos cheguem a eles de outra forma, pois também o poder da escrita no
mundo cristão é composto de retóricas, de heranças filosóficas,
tornando-se um organismo vivo e capaz de transmitir seu conteúdo. Como diz
Cesário de Arles (1939-1940, p. 60), “Visto que os ignorantes e os simples
não podem elevar-se à altura dos letrados, que os letrados condescendam a
abaixar-se até sua ignorância”.
O conhecimento, entendido como textualidade escrita, se
retira, principalmente para os mosteiros. Com uma Regra, a de São Bento,
que estabelece obrigações em relação à leitura. É, aqui, necessária uma
comparação entre o livro como fator de cultura, em São Bento e em
Cassiodoro, para entendermos plenamente o peso das Institutiones,
peso que se apresenta como uma poderosa correnteza subterrânea, em relação
à função atribuída aos livros e ao papel do leitor.
Nos mosteiros beneditinos a lectio é limitada à
Regra, aos livros litúrgicos, à Bíblia – em particular aos Salmos - e
poucos outros textos religiosos. Havia monges analfabetos e incultos, e
tudo induz a crer que nos mosteiros beneditinos do século VI havia poucos
livros, unicamente de natureza religiosa e cuja característica principal
era a simplicidade. A cultura gramatical e retórica tradicionais, já
recusadas pelo santo fundador, eram ausentes da vivência das mais antigas
comunidades beneditinas.
Na comunidade fundada por Cassiodoro, o mosteiro era,
principalmente, uma escola, na qual se ensinavam tanto as ciências
sagradas como as profanas, embasadas em uma concepção totalmente livresca
e filológica da cultura. No prefácio das Institutiones encontra-se
a seguinte afirmação:
por isso, se isso agradar, precisamos preservar a ordem das leituras,
[...] meditar, nos códices emendados, sobre a autoridade divina através do
exercício, [...] para que os defeitos dos livros não aumentem por causa
das inteligências grosseiras. (Institutiones, Praefatio em
Hugo de São Vitor, 2001, p.86).
No texto das Institutiones, além da rica mensagem cultural
percebe-se a presença de elementos novos e destoantes com a impostação
geral do discurso. Por exemplo, quando Cassiodoro é forçado a justificar a
ignorância dos irmãos analfabetos ou incultos, ou quando deve fornecer uma
interpretação alegórica da escrita (como no capítulo XXX, de
antiquariis et commemoratione ortographiae, p. 1145, em que se lê
(3):
“Aquilo que é de Deus de outra maneira se vê publicar, coisa que é lícita.
Assim dito mais figurativamente, do onipotente compus na operação”).
Todavia, a proposta de Cassiodoro não é voltada aos incultos, não busca
qualquer leitor: volta-se, principalmente, para uma elite de poucos cultos
ainda capazes de entendê-lo. Da escrita ele dá uma interpretação puramente
instrumental, em função da divulgação da mensagem cristã e da cultura
tradicional: em uma palavra, antiga.
A preocupação da
Primeira Idade Média com os leitores
A cultura de Cassiodoro é totalmente imersa na antiga
tradição retórica, e não admite intrusão de elementos estranhos no plano
da didática, das técnicas e dos instrumentos. Cultura do escrito em que a
funcionalidade do instrumento gráfico é avaliada somente em sua relação
com o “legendi iter”. Para o autor, a letra corresponde ao elemento
base da escrita e da língua: “Littera est pars mínima vocis articulatae”
(“A letra é a parte menor da articulação da voz”), retomando, nesse
sentido, a definição clássica do gramático Probo, para o qual “Littera
est elementum vocis articulatae”. Em contraste, um autor como Virgílio
de Toulouse já mostra uma visão alegórica da letra, para além do
significado verbal implícito em cada signo gráfico, oferecendo uma
simbólica cristã que se revela ausente em autores como Prisciano e o
próprio Cassiodoro:
Litera mihi videtur humanae condicionis esse similis: sicut enim homo
plasto et afflatu et quodam caelesti igne consistit, ita et litera suo
corpore hoc est figura, arte ac dicione, velut quisdam compaginibus
arctubusque suffuncta est animam habens in sensu, spiridonem in superiore
contemplatione.
(Virgili Grammatici, 1886, p.8).
(4)
O
contraste entre essas definições mostra as pressões ideológicas opostas
sobre a escola e a retórica no século VI, revelando incertezas e
confusões. A “vitória” da espiritualidade cristã leva, a partir desse
pressuposto ao estado de isolamento e à sensação de “antiguidade” da
concepção didática e cultural de Cassiodoro.
Pouca importância, nesse sentido, realmente aparenta ter o autor no
desenvolvimento filosófico da espiritualidade medieval. Porém, aos poucos,
a proposta de biblioteca elaborada por Cassiododro acaba sendo adotada
pela própria ordem beneditina, que substitui gradativamente os preceitos
mais simples de escrita e de leitura de sua Regra, a partir do uso que se
vê necessitada a fazer de materiais originários de Vivarium.
Na
realidade da organização cultural cristã dos primeiros séculos, o livro
encontra seu espaço justamente na experiência monástica, através das
práticas ascéticas individuais ou comunitárias. O trabalho de transcrição
ou a posse de um manuscrito, para o monge era um sustento e, às vezes, uma
mercadoria. Nos "praecepta" de Pacômio se fala em códices
conservados em um espaço obtido na parede, onde se guardam também diversos
objetos de uso doméstico. Responsável para os "codices" resulta ser aquele
que, conforme as "Vitae Patrum”, era o "pai da comunidade". Na
"Regula Magistri" os livros eram confiados a um dos irmãos, que
guardava os "ferramenta monasterii" e várias "arcae", cada
uma preenchida por objetos de artesanato, domésticos e culturais,
reunidos em um único cômodo. Entre os ascetas e nas primeiras comunidades
monásticas circulavam livros ou textos muito escassos. A transcrição dos
livros era vista como trabalho interno à economia do mosteiro e a
distribuição e a retirada dos livros cabiam a um membro da comunidade.
Vivarium
revela uma diversidade organizacional inconciliável com aquela das
primeiras comunidades: havia, de fato, um scriptorium e um adequado
sistema de conservação dos livros. Os códices eram preparados em “quaterniones”
ou “seniones”, com a anexação dos fascículos. A tipologia de cada
manuscrito variava em função do texto e do uso para o qual os próprios
códices se destinavam. Utilizavam-se escritas de módulo diferenciado para
códices de qualidade textual e técnica particular. Em alguns casos era
disponível uma série de instrumentos auxiliares de leitura e consulta, e
era possível encontrar tanto as obras de um autor único quanto os escritos
de vários autores: estes eram reunidos em um volume único ou em poucos
tomos, para serem consultados com facilidade maior. Também a encadernação
era considerada como muito importante. O cuidado "crítico" dedicado ao
texto era praticado através da colação com os antigos e executado com a
ajuda da voz de um leitor. A devolução do texto era regulamentada por
normas exatas. A incompetência dos scriptores deixava, às vezes,
erros no texto que comprometiam a compreensão e, portanto, era necessária
uma Decora Correctio, que também dizia respeito à estética do
livro. As correções eram realizadas de maneira que a escrita do revisor
não se diferenciasse daquela profissional. A biblioteca de Vivarium era
constituída por Armaria numerados, onde os códices, de conteúdo
sacro, profano, latino ou grego, eram guardados. Cassiodoro, em seu texto,
separa seus livros pessoais dos da biblioteca do mosteiro. Havia
Escrituras Sagradas, Atas conciliares, escritos de história, tratados de
gramática, manuais escolares e não faltavam textos de aritmética,
geometria, música e astronomia. Os sistemas e técnicas de produção do
manuscrito reproduziam aqueles praticados nas escolas cristãs
tardo-antigas.
Uma distância cada vez maior dos fiéis em relação aos
textos escritos é visível nas estratégias para a evangelização de
Gregório, entre o final do VI século e o começo do VII. Que a instrução do
clero e do povo tinha mudado desde os tempos de Agostinho e Ambrósio, é
evidente, pelo próprio estilo do autor, consciente de encontrar leitores
ou ouvintes com capacidades de concentração e abstração limitadas.
Gregório é, sem dúvida, um grande divulgador da concepção alegórica cristã
do livro, um pensador em que se encontram os conhecimentos literários que
o tornam um dos maiores exegetas da Bíblia. Em um passo de suas
Homilias sobre Ezequiel, teoriza a diferença entre a aprendizagem
através da escrita e através da audição, ou seja: entre a cultura dos
analfabetos e dos letrados, grupo, este, herdeiro sim da concepção
cultural de Cassiodoro, que em sua introdução à obra define as finalidades
de sua obra em relação aos leitores “possíveis”:
Sabendo como cresce, com grande impulso, o estudo das letras profanas, de
tal modo que grande parte dos homens crê poder, através dele, alcançar a
prudência da carne, fui invadido de uma grandíssima dor ao constatar a
ausência de mestres públicos para as Sagradas Escrituras enquanto pululam
as celebridades dos autores profanos. Procurei então, junto com o
beatíssimo Papa Agapito, que a cidade de Roma recebesse professores de uma
escola cristã onde as almas pudessem receber a salvação eterna e a língua
dos fiéis se embelezasse pela eloqüência puríssima e casta, assim como
outrora houve por muito tempo na cidade de Alexandria, e também
recentemente na cidade de Nísibe dos sírios, por parte dos hebreus. As
guerras, porém, e as turbulentas batalhas extraordinárias, que ocorreram
nas regiões da Itália, fizeram com que meus desejos não pudessem se
realizar, pois as coisas da paz não têm lugar em tempos agitados. A
caridade divina obrigou-me, pois, por este motivo, a escrever estes livros
para vocês, para que fizessem as vezes de um mestre de iniciação. Através
deles, assim considero, a ordem das Escritas Divinas e o conhecimento
breve das letras seculares revela-se como obra divina. Talvez menos
claros, pois neles se encontra não uma eloqüência afetada, mas uma
narração necessária. Sem dúvida, é conhecida a grande vantagem de se ter
coisas escritas, pois através dos livros se aprende, lá onde a saúde da
alma, assim como a erudição secular se ensina que (deles) se originam.
Nesses confio não a própria doutrina, mas as sentencias dos antigos, que é
lícito que os descendentes louvem e que prediquem aquilo que é ilustre.
[...]
Por isso, amados irmãos, aproximemo-nos sem vacilar
das Sagradas Escrituras pelas exposições dos santos padres, como por uma
escada de visão. Que mereçamos, aproveitados pelos seus ensinamentos,
chegar efetivamente à contemplação do Senhor. Esta talvez seja a escada de
Jacó pela qual os anjos subiam e desciam, e feliz será aquela alma a quem
Deus conceder formar-se na intimidade deste caminho; mais feliz ainda será
aquele que nele souber indagar pela inteligência da vida, aquele que,
sabendo despojar-se dos pensamentos humanos, souber revestir-se do
discurso divino. (Institutiones,
Praefatio em
Hugo de
São Vitor 2001, p. 102).
No IV século a Igreja divulga sua mensagem através dos
instrumentos elaborados na sociedade pagã, em primeiro lugar o livro e a
escrita. Cassiodoro representa a encruzilhada que separa esse modelo
cultural do método de divulgação propriamente medieval embasado em um
nível duplo de cultura e dotado de técnicas de comunicação adequadas,
capazes de garantir o contato com todo e qualquer estrato social, pois ele
embasa o projeto erudito cristão que permite a elaboração dos níveis
diferenciados para a difusão da evangelização ortodoxa da Igreja cristã.
É nesse sentido que vale a pena observar a reflexão de
autores que atingem seus conhecimentos nos moldes de Cassiodoro, com
atenção particular em Gregório Magno e Isidoro de Sevilha.
Gregório, homem extremamente culto, é herdeiro da mesma
tradição retórica e escolástica de Cassiodoro, e ambos não desejam
renunciar a ela. Gregório mostra isso em suas obras de exegese,
freqüentemente muito complexas. Como Cassiodoro, reserva essa produção
para um número restrito de eruditos leigos e eclesiásticos. Também, como
Cassiodoro, estimula a transmissão de uma cultura funcional e de um
patrimônio destinado aos iletrados, através da pregação. Nesse sentido,
ambos são teóricos profundamente convencidos da necessidade de uma lógica
cultural dupla, portanto de uma produção cultural diferenciada em dois
níveis, mediados por um grupo “técnico” de comunicação: os pregadores. É a
eles que Gregório dirige seus Diálogos, obra popular por
excelência, nos quais o discurso mímico-cênico, em forma de discurso
direto, prevalece sobre aquele analítico. Essa obra procura, portanto,
leitores menos eruditos. Essa concepção de diversificar os níveis de
leitura, através de uma variedade de meios de difusão, encontra-se em
forma esquemática didática na obra de Isidoro de Sevilha (Isidori
Hispalensi Episcopi, 1911), que propõe explicitamente uma divisão da
produção dos livros em três categorias: os excerpta - os
comentários - e a produção gramatical escolar; as homilias, ou seja, os
textos destinados à pregação; as obras literárias, científicas e
filosóficas, redigidas sem motivações práticas imediatas de tipo escolar
ou litúrgico.
(5) As últimas duas categorias apresentam a diferença de
recepção de público maior, tanto em Isidoro, como em Gregório, e na base
das obras mais eruditas coloca-se, idealmente, a organização do
conhecimento e dos livros fundamentada na estrutura das Institutiones
e realizada em Vivarium.
Essa preocupação encontra-se nas Variae, textos de
Cassiodoro (s/d, Patrologiae Latinae, vol. 69) em que discute
assuntos de natureza diversa. Como exemplo, leia-se a seguinte citação,
relativa aos estilos a serem utilizados:
Como título desses
livros, para designar o caráter e os assuntos e sintetizar em uma palavra
o conteúdo, escolhi o de Variae, pois foi forçado a não usar um
único estilo, precisando me endereçar a pessoas diversas. Diversamente, de
fato, deve-se falar para pessoas preenchidas por muitas leituras, ou para
pessoas de cultura medíocre, ou para quem è totalmente alheio às letras,
querendo persuadi-lo, tanto que, às vezes, è uma forma de perícia
literária evitar aquilo que os doutos gostam. Não à toa, de fato, a sábia
Antiguidade separou três gêneros de eloqüência: a humilde, que para seu
próprio caráter de linguagem comum parece se arrastar no chão, o médio,
que não se eleva à grandiosidade nem decai no desleixo, mas se mantém
dentro dos próprios limites, entre um e outro extremos, dotado, porém,
duma sua graça, e um terceiro gênero, que, pela altura dos conceitos e das
formas se eleva aos cumes mais excelentes do dissertar; certamente, para
que toda variedade de pessoas pudesse dispor de uma linguagem própria, e
essa, mesmo surgindo de um único peito, corresse, todavia, por caminhos
diversos, pois não pode ser chamado de eloqüente aquele que não esteja
armado dessa tríplice virtude, pronto para enfrentar vigorosamente as
situações que se apresentam. (Idem,
Liber I,
p. 500).
Na obra Cura Pastoralis de Gregório, escrita para
educar o clero, aconselha aos pregadores uma adaptação de seus estilos ao
público, mesmo que isso implique deixar de lado os requintes literários,
elemento que revela, inclusive, o declínio do nível cultural médio do
clero. Gregório parte do pressuposto que os clérigos, em sua época, eram
menos preparados daqueles para os quais Agostinho escreveu. Mesmo que seu
trabalho seja voltado para os membros mais instruídos de sua diocese, ele
deixa claro que não espera que eles entendam idéias abstratas, nem que
consigam traduzi-las em atos práticos.
A existência de uma enorme massa de analfabetos cristãos
abre caminhos de leitura diferenciados, mas que se fundamentam em um
conhecimento minimamente “técnico” por parte dos monges. Já observamos que
se realiza uma operação de transferência do material originário de
Vivarium para a Inglaterra exatamente a partir do pontificado de Gregório,
fornecendo material para os níveis de leitura diferenciados em áreas mais
amplas de difusão do cristianismo. Essa base textual se traduz em meios
que não são somente orais, mas também visuais e figurativos, meios
considerados idôneos para a comunicação de conceitos ideológicos ao “vulgus”
inculto ou semiculto, privo de meios de leitura. Nas concepções de
Gregório, tanto teóricas quanto concretas, encontramos, portanto, a
evolução plenamente medieval da estruturação do conhecimento de Cassiodoro
em sua proposta de organização e seleção dos livros: o sonho de Cassiodoro
é antigo, na medida em que ainda mantém a esperança de aproximar a
população às letras, através da manutenção da língua e da textualidade.
Esse legado não encontra as condições necessárias para se realizar, pela
desestruturação cultural da época e pela redução drástica da própria
produção de livros, resultado da redução progressiva da circulação dos
materiais, encaminhando para a busca de alternativas para a educação e a
informação. A maioria dos “leitores” é alcançada pelas técnicas fundadas
no discurso figurativo e não mais analítico-discursivo, mas é na
organização da escada do conhecimento de Cassiodoro que se fundamenta,
cinco séculos depois, o projeto de leitura da primeira escolástica, de
maneira bastante evidente em um autor como Hugo de São Vitor que, em seu
Didascalicon,
(6) pensado como livro pedagógico e manual de leitura
para os estudantes da Escola, além de recorrer a citações diretas de Cassiodoro, revela a persistência de seu legado na constituição de uma
“biblioteca ideal” que se sustenta ao longo da Idade Média, pois a
encontramos florescer, no âmbito das cidades fervilhantes de novos
comércios, novas catedrais e muitos estudantes, a disposição de um número
mais amplo de leitores.
Primeira tentativa
de sistematização da literatura patrística (à qual o próprio Cassiodoro
deu uma contribuição notável, com a composição de um imponente Comentário
aos Salmos), os capítulos iniciais das Instituções são um livro
feito por livros, mas também atravessado por uma galeria de personagens
dedicados à escrita e à tradução delineados com poucos e claros tratos.
Há, em
primeiro lugar, o pequeno grupo dos monges mais cultos - Bellator,
Epifânio e Muciano -, aos quais são confiadas as traduções dos textos
gregos ou a redação de comentários bíblicos ad hoc. Seguem autores
canônicos da literatura religiosa, com o elenco das obras consideradas
essenciais na escalada para o conhecimento divino. Mas é quando nos
deparamos com o retrato de Eusébio, monge cego capaz de consultar sem
nenhuma dificuldade os livros e os autores guardados "na biblioteca de sua
memória" que chegamos a entender que não se deve mais ter medo da erudição
enfadonha de uma Idade das Trevas pouco atraente, porque é aqui que a
história nos deixa espaço para apreciarmos as fontes primárias do enredo
do Nome da Rosa, mas, principalmente, as raízes intelectuais de
Umberto Eco.