Crippa, G. (2004). Um bibliotecário em sua biblioteca: Cassiodoro e os leitores ideais na Idade Média Memorandum, 7, 47-57.  Retirado em   /  /  , do World Wide Web: http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos07/crippa01.htm

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Um bibliotecário em sua biblioteca: Cassiodoro e os leitores ideais na Idade Média

 A librarian in his library: Cassiodorus and the ideal reader in the Middle Age

 Giulia Crippa
Universidade de São Paulo
Brasil

 

Resumo

Uma proposta de releitura do De Institutione Divinarum Litterarum, “manual” para organização de uma biblioteca, obra de Cassiodoro. Autor longamente avaliado na ótica do desenvolvimento da espiritualidade cristã, referência obrigatória na história das bibliotecas, sempre é mostrado como exemplo de antiguidade tardia, caso isolado e sem influências maiores na Idade Média. Na perspectiva de uma história da leitura e dos públicos leitores, uma revisão crítica torna-se necessária: a preocupação com a função dos livros e com níveis diferenciados de leitores e de leituras, reconhecida em Gregório Magno e em Isidoro de Sevilha, já estava presente em Cassiodoro. Por outro lado, a imagem da biblioteca beneditina e de seus monges copistas é recalcada no modelo da atividade desenvolvida em Vivarium, muito mais do proposto pela Regra. A atividade ligada aos livros, atribuída aos monges beneditinos, é tardia em relação à fundação da ordem, e sofre influência profunda da escola de Cassiodoro.

 Palavras-chave: Cassiodoro; bibliotecas; história da leitura

Abstract

New reading of the De Institutione Divinarum Litterarum, a “didactical writing” for library organization, by Cassiodorus, considered for a long time, in the perspective of the spiritual Christian development, mandatory reference in the history of libraries, and an example of Late Antiquity thinker, an isolated case with no large influence during the Middle Ages. In the perspective of the history of reading and of the readers, a critical reading becomes necessary, due to the concern about the function of books and of different reading levels, recognized by Gregorius Magnus and Isidor of Seville, were already presents in Cassiodorus. A certain picture of Benedictine libraries and of their writing monks reveals a model generated in Vivarium, much more than what was contained in the Rule. Activities related to books attributed to Benedictine monks take place later than the foundation of the order, and reveals a profound influence of Cassiodorus’ school.

 Keywords: Cassiodorus; libraries; history of reading

Introdução

Nos últimos anos muitas páginas têm sido escritas sobre o ato da leitura. Os historiadores e os historiadores da literatura, derrubadas as fronteiras tradicionais de seus campos de estudos, vêm dedicando pesquisas voltadas ao entendimento desse ato, com abordagens diversas: dos enfoques mais literário-estéticos, que re-visitam as obras através de seus públicos, estratificados ao longo dos séculos, aos estudos de cunho mais antropológico, que procuram descobrir ritos individuais e coletivos da leitura, até as fronteiras de uma demografia da distribuição dos livros e dos leitores.

Conhecimento histórico, para ter um sentido hoje, teve e tem que refletir sobre si próprio, para se dotar de significado, para procurar ferramentas de exegese e crítica à realidade. E é exatamente nessa busca de uma identidade, que se quer intelectual, que surge a necessidade de se pensar o próprio conhecimento em sua vertente histórica, como nos propomos aqui, através da abordagem de uma época e de uma visão do mundo em evidente estado de mudança, entre Antiguidade e Idade Média. Nessa passagem, imperceptível no sentir cotidiano, é possível destrinchar heranças e novos horizontes, que ainda se confundiam e interagiam entre elas, transformando-se: o resgate da reflexão intelectual de outros momentos, de outras épocas, torna-se necessária para refletir sobre o papel e o desempenho daquela parte de população que procura, como caminho, o uso da textualidade escrita como instrumento estruturante de sua própria existência, traço que permite identificar aquelas figuras que, no decorrer do tempo se tornam o conjunto intelectual reconhecido daquele espaço e tempo. Localizamos um momento e um espaço privilegiados: o ocidente de tradição romana. Trata-se de uma área em que o registro histórico se constitui, em um primeiro momento, no reconhecimento do valor da prática da escrita como constitutiva de um conjunto de documentos portadores de memórias que, feitas as distinções de método e crítica da exegese documentária, estruturam a memória de poderes existentes e de suas vertentes. Dentro dos estudos voltados à leitura e aos leitores, voltados ao entendimento da distribuição e funcionalidade dos vários registros textuais, tanto verbais como icônicos, ainda há um amplo espaço para a releitura de “teóricos” do conhecimento e de sua organização, ao mesmo tempo personagens atuantes dentro da efetiva estruturação da divisão e classificação do registro de suporte desse conhecimento. Pretendemos, nesse trabalho, analisar uma fonte escrita: trata-se do tratado de Flávio Magno Aurélio Cassiodoro (s/d, tomus 70, p.1106-1150) De Institutione Divinarum Litterarum, escrito no VI século d.C, como “manual de instrução” da biblioteca de Vivarium.

Varias são, hoje, as razões de se voltar a essa fonte e discuti-la: em primeiro lugar, a farta bibliografia que trata da história das bibliotecas, quando se ocupa da Idade Média, cita ostensivamente este tratado. Todavia, a referência, obrigatória, limita-se a sinalizar a iniciativa de Cassiodoro de preservar e perpetuar a tradição clássica, por meio das traduções, ao lado da transcrição dos manuscritos cristãos. Livros de divulgação, como o recente best seller de Matthew Battles (2003) revelam como essa fonte primária seja, na verdade ou desconhecida ou citação de citação. Battles, por exemplo, mostra um grau de desconhecimento notável desse autor (cf. Idem, pp. 64-65) e, todavia, seu livro alcança um público relativamente amplo de leitores interessados no assunto histórico sobre livros e bibliotecas, contribuindo, assim, à divulgação anacrônica da relação livros/leitores.

Ensaios como o de Pierre Riché, muito mais corretos do ponto de vista da interpretação histórica e das referências, em sua busca de uma panorâmica ampla da Idade Média, todavia, reduzem a importância que esse autor teve na estruturação das camadas de leitores ao longo de dez séculos (Riché, 2000; Basbanes, 1999). Para entender plenamente o peso que esse tratado teve, tanto na concepção de biblioteca, mas, principalmente, na concepção da leitura e do leitor, é necessário conhecermos algo sobre o autor e sobre as reflexões dos principais pensadores de sua época em relação à textualidade escrita, suas funções e seu público.

A obra de Cassiodoro e suas influências

Flávio Magno Aurélio Cassiodoro, romano de origem síria, nasceu na Calábria por volta de 485 e morreu por volta de 580. Em um primeiro momento, foi conselheiro do rei Teodorico. Depois da reconquista bizantina da Itália, passou do lado dos vencedores e se mudou para Constantinopla. Em 555 voltou para suas terras, em Vivarium, onde edificou um mosteiro dedicado a Santo Martinho, que se tornou centro de estudos com a finalidade de adquirir um conhecimento mais aprofundado da Bíblia, utilizando, para isso, sem limitação, as contribuições da cultura pagã e da escola clássica. Em Vivarium, Cassiodoro criou o modelo de uma comunidade monástica, em que os estudos bíblicos apoiavam-se na base de uma harmoniosa colaboração de caráter espiritual e manual, e onde uma dignidade especial era dada aos escribas. Eles enriqueciam com o trabalho de suas mãos a preciosa biblioteca, coração do mosteiro, que conhecemos melhor de qualquer outra em época anterior aos carolíngios, pelas Institutiones. Em Vivarium, Cassiodoro e seus colaboradores, além de resgatar para a latinidade medieval obras gregas, através da tradução, criaram novas obras latinas cristãs. As Institutiones introduzem uma época em suas primeiras linhas: Cassiodoro, durante o pontificado de Agapito, imaginou a criação de uma "faculdade teológica" romana: uma instituição que teria a tarefa de contrastar o predomínio das humanae litterae na instrução superior. Pedagogia tradicional e estudo da Bíblia, reflexão espiritual e preocupações filológicas (ou mesmo simplesmente gramaticais: a última obra de Cassiodoro [s/d, Patrologiae Latinae, tomus 70, pp. 1239-1270], composta quando o autor tinha mais de noventa anos, è um pequeno manual, o De Orthographia) são as diretrizes ao longo das quais se moldam as atividades de Vivarium, um mosteiro que, de fato, antecipa a estrutura organizativa e a função cultural que as instituições monásticas assumirão de modo mais acentuado ao longo dos séculos seguintes.

Após sua morte, a maioria dos livros foi, provavelmente, destinada à biblioteca do Latrão e, em épocas diferentes, foram levados à França e à Inglaterra, para serem copiados. Em particular, durante a época da evangelização da Inglaterra, há referências, em autores notáveis como Beda, às viagens dos abades ingleses para Roma, com a finalidade de se abastecer de livros, muitos dos quais eram obras de gramática (1). O conhecimento dessa Arte era necessário ao entendimento da Vulgata, em latim, língua que, nessas terras, não pertencia aos novos monges convertidos. Os monges enviados por Gregório Magno, que evangelizam a Inglaterra, levaram consigo livros, e o anglo-saxão Bento Biscop, que na juventude fora para Roma, cria as bibliotecas de Wearmouth e de Jarrow, com base nos manuscritos que levara consigo na volta de sua viagem. Graças à biblioteca de Jarrow, Beda o venerável tornou-se um dos maiores letrados da Alta Idade Média. É no contato com os livros clássicos, profanos e sagrados, que adquiriu um estilo claro e pôde utilizar o latim em suas obras históricas, científicas e escriturísticas. Beda formou Egberto, arcebispo de York em 734, ano de nascimento de Alcuíno, que mais tarde dirigiu a mesma escola, deixando uma espécie de catálogo de todos os livros que possuía. Em 781 Alcuíno encontrou Carlos Magno em Parma, constituindo um sodalício cultural entre os mais importantes da Idade Média, que possibilitou a reorganização e a reunificação da informação escrita naquela que é comumente chamada “Renascença Carolíngia”.

Pela especificidade dos interesses de Cassiodoro, considera-se que muitas das obras levadas para a Inglaterra da biblioteca do Latrão eram, originariamente, parte da biblioteca de Vivarium.

Dos dois livros que compõem as De Institutione Divinarum Litterarum - manifesto cultural e, ao mesmo tempo, diário de trabalho compilado por Cassiodoro em benefício dos próprios monges - aquele destinado a uma maior difusão na Idade Média è o segundo, que contém um compêndio essencial das artes liberais redigido na base de fontes destinadas a se tornarem cada vez menos acessíveis. Mas, para o leitor moderno, resulta sem dúvida mais fascinante o primeiro livro da obra, no qual Cassiodoro oferece uma resenha dos livros conservados em Vivarium, tendo o cuidado de assinalar aqueles provenientes de seu fundo pessoal e aqueles em grego, dispostos em uma prateleira específica. As Institutiones, obra de amplidão notável, clara e, portanto, fácil de ser analisada e comentada, por muito tempo não foi considerada marcante para a Idade Média, pois não teve peso relevante na tradição espiritual monástica. O plano de estudos de Cassiodoro, aparentemente, permaneceu uma espécie de programa especulativo, sobre o qual nunca se refletiu e do qual nunca se tirou inspiração, a não ser em época bem mais tardia, sem dúvida pela influência de Alcuíno que, não por acaso, realizou sua formação como abade de York.

Seguindo esse raciocínio, se a influência espiritual de Cassiodoro é praticamente nula, em termos de projeto cultural sua figura é bem mais relevante, merecendo, assim, algumas reflexões a mais do que o costumeiro.

A palavra escrita no cristianismo

A Igreja, ao longo de sua constituição, se articula na base da palavra escrita. Podemos verificar como, a partir do século II há muitas exortações à leitura, mas que desde o século III isso é cada vez mais freqüente: por exemplo, vêem-se imposições da leitura das Escrituras nas casas, para as famílias, no almoço e no jantar, antes de dormir e ao acordar. Isso não parece funcionar muito: taedium verbi divini é uma reclamação conhecida por Orígenes (cf. Harnack, 1912, p. 69.). As mulheres preferem ler coisas mais leves (quem sabe, o romance popular sobre um homem que, por um feitiço, se transforma em um asno de ouro?). João Crisóstomo se desespera, quando pergunta “Quais de vocês lêem um livro cristão em casa?”, e “vocês têm dados em casa, mas nenhum livro” (citado por Harnack, 1912, p. 85). (2). Considerando alguns aspectos do mercado de livros no Império (cf. Kleberg, 1992 e Fedeli, 1998), os representantes da Igreja, que conhecem a realidade do seu tempo, não teriam a ingenuidade de convidar à leitura sem um mínimo de acesso possível ao material escrito. Parece que entre o II e o III século da era Cristã um rolo de papiro padrão, vinte folhas, não custava muito: a palavra de Deus, então, era relativamente acessível. Certo, mas o número de alfabetizados era muito menor em relação aos dias de hoje. Na verdade, o número de leitores não coincide necessariamente com o numero de pessoas alfabetizadas. Nos primeiros tempos da Cristandade havia um incentivo muito grande à aproximação com a palavra escrita. Além disso, Igreja se organizou para divulgar, oralmente, seus ensinamentos, que, todavia, se fundamentavam em escritos (e não somente o Velho e Novo Testamento, mas as vidas dos mártires e dos santos eram uma produção amplamente presente). Para facilitar o acesso ao conteúdo textual escrito, existia a figura dos leitores, mas também a translação  para a pregação, os cantos e a iconografia. A partir do dado fundamental de que os cristãos são o “Povo do Livro”, ou seja, de algo escrito, pode-se observar a deslocação da leitura stricto sensu para outras formas de textualidade. Aliás, isso se torna indispensável, pois também entre aqueles que deveriam deter o conhecimento, assiste-se, após os primeiros séculos da era cristã, a uma cada vez maior incapacidade de elaborar questões abstratas.

Cesário de Arles, bispo de 503 a 543, chega a ser comparado ao bispo Cipriano pela promoção de textos escritos. Ele sabe que já está pregando em um deserto: sua tarefa é incentivar à leitura das Escrituras em família, em voz alta, para todos, o que parece indicar uma certa resistência: não se exorta a fazer o que é feito corriqueiramente. João Crisóstomo, em um passo, imagina um reclamante, lhe dizendo: “Eu sou um homem de negócios; não é minha ocupação ler a Bíblia [...] isso é coisa para quem renunciou ao mundo e se devotou a uma vida soltaria no topo da montanha”. Também há respostas tipo “Não somos monges” (citado por Harnack, 1912, p. 118.). A degradação do paradigma cultural e das estruturas não são novidades, mas qual é a solução? Gramáticos, pedagogos, enfim, aqueles que se encontram seriamente preocupados com o declínio das estruturas culturais do Império tardio, procuram uma saída. E pouco importa se cristãos ou pagãos: a consciência é que não se pode perder aquele conhecimento, porque em algum momento, algo nele funcionou em estabelecer as regras de um sistema. É um momento de compêndios: se os estudantes, clérigos ou leigos pouco importa, não lêem os clássicos, então que os clássicos cheguem a eles de outra forma, pois também o poder da escrita no mundo cristão é composto de retóricas, de heranças filosóficas, tornando-se um organismo vivo e capaz de transmitir seu conteúdo. Como diz Cesário de Arles (1939-1940, p. 60), “Visto que os ignorantes e os simples não podem elevar-se à altura dos letrados, que os letrados condescendam a abaixar-se até sua ignorância”.

O conhecimento, entendido como textualidade escrita, se retira, principalmente para os mosteiros. Com uma Regra, a de São Bento, que estabelece obrigações em relação à leitura. É, aqui, necessária uma comparação entre o livro como fator de cultura, em São Bento e em Cassiodoro, para entendermos plenamente o peso das Institutiones, peso que se apresenta como uma poderosa correnteza subterrânea, em relação à função atribuída aos livros e ao papel do leitor.

Nos mosteiros beneditinos a lectio é limitada à Regra, aos livros litúrgicos, à Bíblia – em particular aos Salmos - e poucos outros textos religiosos. Havia monges analfabetos e incultos, e tudo induz a crer que nos mosteiros beneditinos do século VI havia poucos livros, unicamente de natureza religiosa e cuja característica principal era a simplicidade. A cultura gramatical e retórica tradicionais, já recusadas pelo santo fundador, eram ausentes da vivência das mais antigas comunidades beneditinas.

Na comunidade fundada por Cassiodoro, o mosteiro era, principalmente, uma escola, na qual se ensinavam tanto as ciências sagradas como as profanas, embasadas em uma concepção totalmente livresca e filológica da cultura. No prefácio das Institutiones encontra-se a seguinte afirmação:

por isso, se isso agradar, precisamos preservar a ordem das leituras, [...] meditar, nos códices emendados, sobre a autoridade divina através do exercício, [...] para que os defeitos dos livros não aumentem por causa das inteligências grosseiras. (Institutiones, Praefatio em Hugo de São Vitor, 2001, p.86).

 

No texto das Institutiones, além da rica mensagem cultural percebe-se a presença de elementos novos e destoantes com a impostação geral do discurso. Por exemplo, quando Cassiodoro é forçado a justificar a ignorância dos irmãos analfabetos ou incultos, ou quando deve fornecer uma interpretação alegórica da escrita (como no capítulo XXX, de antiquariis et commemoratione ortographiae, p. 1145, em que se lê (3): “Aquilo que é de Deus de outra maneira se vê publicar, coisa que é lícita. Assim dito mais figurativamente, do onipotente compus na operação”). Todavia, a proposta de Cassiodoro não é voltada aos incultos, não busca qualquer leitor: volta-se, principalmente, para uma elite de poucos cultos ainda capazes de entendê-lo. Da escrita ele dá uma interpretação puramente instrumental, em função da divulgação da mensagem cristã e da cultura tradicional: em uma palavra, antiga.

 

A preocupação da Primeira Idade Média com os leitores

A cultura de Cassiodoro é totalmente imersa na antiga tradição retórica, e não admite intrusão de elementos estranhos no plano da didática, das técnicas e dos instrumentos. Cultura do escrito em que a funcionalidade do instrumento gráfico é avaliada somente em sua relação com o “legendi iter”. Para o autor, a letra corresponde ao elemento base da escrita e da língua: “Littera est pars mínima vocis articulatae” (“A letra é a parte menor da articulação da voz”), retomando, nesse sentido, a definição clássica do gramático Probo, para o qual “Littera est elementum vocis articulatae”. Em contraste, um autor como Virgílio de Toulouse já mostra uma visão alegórica da letra, para além do significado verbal implícito em cada signo gráfico, oferecendo uma simbólica cristã que se revela ausente em autores como Prisciano e o próprio Cassiodoro:

Litera mihi videtur humanae condicionis esse similis: sicut enim homo plasto et afflatu et quodam caelesti igne consistit, ita et litera suo corpore hoc est figura, arte ac dicione, velut quisdam compaginibus arctubusque suffuncta est animam habens in sensu, spiridonem in superiore contemplatione. (Virgili Grammatici, 1886, p.8). (4)

 

O contraste entre essas definições mostra as pressões ideológicas opostas sobre a escola e a retórica no século VI, revelando incertezas e confusões. A “vitória” da espiritualidade cristã leva, a partir desse pressuposto ao estado de isolamento e à sensação de “antiguidade” da concepção didática e cultural de Cassiodoro.

Pouca importância, nesse sentido, realmente aparenta ter o autor no desenvolvimento filosófico da espiritualidade medieval. Porém, aos poucos, a proposta de biblioteca elaborada por Cassiododro acaba sendo adotada pela própria ordem beneditina, que substitui gradativamente os preceitos mais simples de escrita e de leitura de sua Regra, a partir do uso que se vê necessitada a fazer de materiais originários de Vivarium.

Na realidade da organização cultural cristã dos primeiros séculos, o livro encontra seu espaço justamente na experiência monástica, através das práticas ascéticas  individuais ou comunitárias. O trabalho de transcrição ou a posse de um manuscrito, para o monge era um sustento e, às vezes, uma mercadoria. Nos "praecepta" de Pacômio se fala em códices conservados em um espaço obtido na parede, onde se guardam também diversos objetos de uso doméstico. Responsável para os "codices" resulta ser aquele que,   conforme as "Vitae Patrum”,   era o "pai da comunidade". Na "Regula Magistri" os livros eram confiados a um dos irmãos, que guardava os "ferramenta monasterii" e várias "arcae", cada uma preenchida por objetos de artesanato,   domésticos e culturais, reunidos em um único cômodo. Entre os ascetas e nas primeiras comunidades monásticas circulavam livros ou textos muito escassos. A transcrição dos livros era vista como trabalho interno à economia do mosteiro e a distribuição e a retirada dos livros cabiam a um membro da comunidade.

Vivarium revela uma diversidade organizacional inconciliável com aquela das primeiras comunidades: havia, de fato, um scriptorium e um adequado sistema de conservação dos livros. Os códices eram preparados em “quaterniones” ou “seniones”, com a anexação dos fascículos. A tipologia de cada manuscrito variava em função do texto e do uso para o qual os próprios códices se destinavam. Utilizavam-se escritas de módulo diferenciado para códices de qualidade textual e técnica particular. Em alguns casos era disponível uma série de instrumentos auxiliares de leitura e consulta, e era possível encontrar tanto as obras de um autor único quanto os escritos de vários autores: estes eram reunidos em um volume único ou em poucos tomos, para serem consultados com facilidade maior. Também a encadernação era considerada como muito importante. O cuidado "crítico" dedicado ao texto era praticado através da colação com os antigos e executado com a ajuda da voz de um leitor. A devolução do texto era regulamentada por normas exatas. A incompetência dos scriptores deixava, às vezes, erros no texto que comprometiam a compreensão e, portanto, era necessária uma Decora Correctio, que também dizia respeito à estética do livro. As correções eram realizadas de maneira que a escrita do revisor não se diferenciasse daquela profissional. A biblioteca de Vivarium era constituída por Armaria numerados, onde os códices, de conteúdo sacro, profano, latino ou grego, eram guardados. Cassiodoro, em seu texto, separa seus livros pessoais dos da biblioteca do mosteiro. Havia Escrituras Sagradas, Atas conciliares, escritos de história, tratados de gramática, manuais escolares e não faltavam textos de aritmética, geometria, música e astronomia. Os sistemas e técnicas de produção do manuscrito reproduziam aqueles praticados nas escolas cristãs tardo-antigas.

Uma distância cada vez maior dos fiéis em relação aos textos escritos é visível nas estratégias  para a evangelização de Gregório, entre o final do VI século e o começo do VII. Que a instrução do clero e do povo tinha mudado desde os tempos de Agostinho e Ambrósio, é evidente, pelo próprio estilo do autor, consciente de encontrar leitores ou ouvintes com capacidades de concentração e abstração limitadas. Gregório é, sem dúvida, um grande divulgador da concepção alegórica cristã do livro, um pensador em que se encontram os conhecimentos literários que o tornam um dos maiores exegetas da Bíblia. Em um passo de suas Homilias sobre Ezequiel, teoriza a diferença entre a aprendizagem através da escrita e através da audição, ou seja: entre a cultura dos analfabetos e dos letrados, grupo, este, herdeiro sim da concepção cultural de Cassiodoro, que em sua introdução à obra define as finalidades de sua obra em relação aos leitores “possíveis”:

Sabendo como cresce, com grande impulso, o estudo das letras profanas, de tal modo que grande parte dos homens crê poder, através dele, alcançar a prudência da carne,  fui invadido de uma grandíssima dor ao constatar a ausência de mestres públicos para as Sagradas Escrituras enquanto pululam as celebridades dos autores profanos. Procurei então, junto com o beatíssimo Papa Agapito, que a cidade de Roma recebesse professores de uma escola cristã onde as almas pudessem receber a salvação eterna e a língua dos fiéis se embelezasse pela eloqüência puríssima e casta, assim como outrora houve por muito tempo na cidade de Alexandria, e também recentemente na cidade de Nísibe dos sírios, por parte dos hebreus. As guerras, porém, e as turbulentas batalhas extraordinárias, que ocorreram nas regiões da Itália, fizeram com que meus desejos não pudessem se realizar, pois as coisas da paz não têm lugar em tempos agitados. A caridade divina obrigou-me, pois, por este motivo, a escrever estes livros para vocês, para que fizessem as vezes de um mestre de iniciação. Através deles, assim considero, a ordem das Escritas Divinas e o conhecimento breve das letras seculares revela-se como obra divina. Talvez menos claros, pois neles se encontra não uma eloqüência afetada, mas uma narração necessária. Sem dúvida, é conhecida a grande vantagem de se ter coisas escritas, pois através dos livros se aprende, lá onde a saúde da alma, assim como a erudição secular se ensina que (deles) se originam. Nesses confio não a própria doutrina, mas as sentencias dos antigos, que é lícito que os descendentes louvem e que prediquem aquilo que é ilustre. [...] Por isso, amados irmãos, aproximemo-nos sem vacilar das Sagradas Escrituras pelas exposições dos santos padres, como por uma escada de visão. Que mereçamos, aproveitados pelos seus ensinamentos, chegar efetivamente à contemplação do Senhor. Esta talvez seja a escada de Jacó pela qual os anjos subiam e desciam, e feliz será aquela alma a quem Deus conceder formar-se na intimidade deste caminho; mais feliz ainda será aquele que nele souber indagar pela inteligência da vida, aquele que, sabendo despojar-se dos pensamentos humanos, souber revestir-se do discurso divino. (Institutiones, Praefatio em Hugo de São Vitor 2001, p. 102).

No IV século a Igreja divulga sua mensagem através dos instrumentos elaborados na sociedade pagã, em primeiro lugar o livro e a escrita. Cassiodoro representa a encruzilhada que separa esse modelo cultural do método de divulgação propriamente medieval embasado em um nível duplo de cultura e dotado de técnicas de comunicação adequadas, capazes de garantir o contato com todo e qualquer estrato social, pois ele embasa o projeto erudito cristão que permite a elaboração dos níveis diferenciados para a difusão da evangelização ortodoxa da Igreja cristã.

É nesse sentido que vale a pena observar a reflexão de autores que atingem seus conhecimentos nos moldes de Cassiodoro, com atenção particular em Gregório Magno e Isidoro de Sevilha.

Gregório, homem extremamente culto, é herdeiro da mesma tradição retórica e escolástica de Cassiodoro, e ambos não desejam renunciar a ela. Gregório mostra isso em suas obras de exegese, freqüentemente muito complexas. Como Cassiodoro, reserva essa produção para um número restrito de eruditos leigos e eclesiásticos. Também, como Cassiodoro, estimula a transmissão de uma cultura funcional e de um patrimônio destinado aos iletrados, através da pregação. Nesse sentido, ambos são teóricos profundamente convencidos da necessidade de uma lógica cultural dupla, portanto de uma produção cultural diferenciada em dois níveis, mediados por um grupo “técnico” de comunicação: os pregadores. É a eles que Gregório dirige seus Diálogos, obra popular por excelência, nos quais o discurso mímico-cênico, em forma de discurso direto, prevalece sobre aquele analítico. Essa obra procura, portanto, leitores menos eruditos. Essa concepção de diversificar os níveis de leitura, através de uma variedade de meios de difusão, encontra-se em forma esquemática didática na obra de Isidoro de Sevilha (Isidori Hispalensi Episcopi, 1911), que propõe explicitamente uma divisão da produção dos livros em três categorias: os excerpta - os comentários - e a produção gramatical escolar; as homilias, ou seja, os textos destinados à pregação; as obras literárias, científicas e filosóficas, redigidas sem motivações práticas imediatas de tipo escolar ou litúrgico. (5) As últimas duas categorias apresentam a diferença de recepção de público maior, tanto em Isidoro, como em Gregório, e na base das obras mais eruditas coloca-se, idealmente, a organização do conhecimento e dos livros fundamentada na estrutura  das Institutiones  e realizada em Vivarium.

Essa preocupação encontra-se nas Variae, textos de Cassiodoro (s/d, Patrologiae Latinae, vol. 69) em que discute assuntos de natureza diversa. Como exemplo, leia-se a seguinte citação, relativa aos estilos a serem utilizados:

Como título desses livros, para designar o caráter e os assuntos e sintetizar em uma palavra o conteúdo, escolhi o de Variae, pois foi forçado a não usar um único estilo, precisando me endereçar a pessoas diversas. Diversamente, de fato, deve-se falar para pessoas preenchidas por muitas leituras, ou para pessoas de cultura medíocre, ou para quem è totalmente alheio às letras, querendo persuadi-lo, tanto que, às vezes, è uma forma de perícia literária evitar aquilo que os doutos gostam. Não à toa, de fato, a sábia Antiguidade separou três gêneros de eloqüência: a humilde, que para seu próprio caráter de linguagem comum parece se arrastar no chão, o médio, que não se eleva à grandiosidade nem decai no desleixo, mas se mantém dentro dos próprios limites, entre um e outro extremos, dotado, porém, duma sua graça, e um terceiro gênero, que, pela altura dos conceitos e das formas se eleva aos cumes mais excelentes do dissertar; certamente, para que toda variedade de pessoas pudesse dispor de uma linguagem própria, e essa, mesmo surgindo de um único peito, corresse, todavia, por caminhos diversos, pois não pode ser chamado de eloqüente aquele que não esteja armado dessa tríplice virtude, pronto para enfrentar vigorosamente as situações que se apresentam. (Idem, Liber I, p. 500).

Na obra Cura Pastoralis de Gregório, escrita para educar o clero, aconselha aos pregadores uma adaptação de seus estilos ao público, mesmo que isso implique deixar de lado os requintes literários, elemento que revela, inclusive, o declínio do nível cultural médio do clero. Gregório parte do pressuposto que os clérigos, em sua época, eram menos preparados daqueles para os quais Agostinho escreveu. Mesmo que seu trabalho seja voltado para os membros mais instruídos de sua diocese, ele deixa claro que não espera que eles entendam idéias abstratas, nem que consigam traduzi-las em atos práticos.

A existência de uma enorme massa de analfabetos cristãos abre caminhos de leitura diferenciados, mas que se fundamentam em um conhecimento minimamente “técnico” por parte dos monges. Já observamos que se realiza uma operação de transferência do material originário de Vivarium para a Inglaterra exatamente a partir do pontificado de Gregório, fornecendo material para os níveis de leitura diferenciados em áreas mais amplas de difusão do cristianismo. Essa base textual se traduz em meios que não são somente orais, mas também visuais e figurativos, meios considerados idôneos para a comunicação de conceitos ideológicos ao “vulgus” inculto ou semiculto, privo de meios de leitura. Nas concepções de Gregório, tanto teóricas quanto concretas, encontramos, portanto, a evolução plenamente medieval da estruturação do conhecimento de Cassiodoro em sua proposta de organização e seleção dos livros: o sonho de Cassiodoro é antigo, na medida em que ainda mantém a esperança de aproximar a população às letras, através da manutenção da língua e da textualidade. Esse legado não encontra as condições necessárias para se realizar, pela desestruturação cultural da época e pela redução drástica da própria produção de livros, resultado da redução progressiva da circulação dos materiais, encaminhando para a busca de alternativas para a educação e a informação. A maioria dos “leitores” é alcançada pelas técnicas fundadas no discurso figurativo e não mais analítico-discursivo, mas é na organização da escada do conhecimento de Cassiodoro que se fundamenta, cinco séculos depois, o projeto de leitura da primeira escolástica, de maneira bastante evidente em um autor como Hugo de São Vitor que, em seu Didascalicon, (6) pensado como livro pedagógico e manual de leitura para os estudantes da Escola, além de recorrer a citações diretas de Cassiodoro, revela a persistência de seu legado na constituição de uma “biblioteca ideal” que se sustenta ao longo da Idade Média, pois a encontramos florescer, no âmbito das cidades fervilhantes de novos comércios, novas catedrais e muitos estudantes, a disposição de um número mais amplo de leitores.

Primeira tentativa de sistematização da literatura patrística (à qual o próprio Cassiodoro deu uma contribuição notável, com a composição de um imponente Comentário aos Salmos), os capítulos iniciais das Instituções são um livro feito por livros, mas também atravessado por uma galeria de personagens dedicados à escrita e à tradução delineados com poucos e claros tratos. Há, em primeiro lugar, o pequeno grupo dos monges mais cultos - Bellator, Epifânio e Muciano -, aos quais são confiadas as traduções dos textos gregos ou a redação de comentários bíblicos ad hoc. Seguem autores canônicos da literatura religiosa, com o elenco das obras consideradas essenciais na escalada para o conhecimento divino. Mas é quando nos deparamos com o retrato de Eusébio, monge cego capaz de consultar sem nenhuma dificuldade os livros e os autores guardados "na biblioteca de sua memória" que chegamos a entender que não se deve mais ter medo da erudição enfadonha de uma Idade das Trevas pouco atraente, porque é aqui que a história nos deixa espaço para apreciarmos as fontes primárias do enredo do Nome da Rosa, mas, principalmente, as raízes intelectuais de Umberto Eco.

Referências bibliográficas

Riché, P. As bibliotecas e a formação da cultura medieval. Em M. Baratin & C. Jacob (2000). O poder das bibliotecas: a memória dos livros no Ocidente. (pp. 246-247). Rio de Janeiro: UFRJ.

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Notas

(1) As referências a algumas das viagens de Bento Biscop encontram-se na Vidas dos abades de Wearmouth e Jarrow de Beda, editadas por D.H.Farmer (1965) nas pp. 188, 190, 192, 196 e 198.(volta)

(2) João Crisostomo, Homilia in Johannis, 32, citado in Harnack, A. (1912), p. 85.(volta)

(3)  “(...) quod factum Domini aliquo modo videntur imitari, qui legem suam (licet figuraliter sit dictum) omnipotentis digiti operatione conscripsit”.(volta)

(4) “A letra me parece ser próxima à condição humana: de fato, tanto o homem é feito de lama, respiro e de um certo fogo celeste quanto a letra é a figura deste seu corpo, na arte e na dicção, por assim dizer, com certas conjunções e articulações se realiza, tendo a alma na frase, o espírito na contemplação superior”.(volta)

(5) Etymologiarum sive originum libri XX. (1911) VI, viii, 1-2. (volta)

(6) O Livro IV do Didascalicon pode ser comparado, em sua estrutura, com os capítulos I a XV das Institutiones.(volta)

 

Nota sobre a autora

Giulia Crippa é professora do Curso de Ciências da Informação e da Documentação, Departamento de Física e Matemática, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo – Campus de Ribeirão Preto, Brasil. Contato: giuliac@ffclrp.usp.br

Data de recebimento: 17/08/2004
Data de aceite: 11/10/2004

Memorandum 7, out/2004
Belo Horizonte: UFMG; Ribeirão Preto: USP.
http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos07/crippa01.htm

 

 

 

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