Um dos marcos de sua carreira foi a recepção e interlocução oferecida ao filósofo francês Michel Foucault na sua vinda a Belo Horizonte em 1973


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Morreu nesta terça-feira, dia 9 de junho, o professor aposentado da UFMG José de Anchieta Corrêa, aos 92 anos. Docente do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da década de 1970 aos anos 2000, o professor se notabilizou, entre outras contribuições, por ter participado de um momento marcante da vida intelectual de Belo Horizonte: a recepção ao filósofo francês Michel Foucault, ocorrida em 1973.
O velório e a cerimônia de despedida foram realizados no cemitério Parque da Colina, em Belo Horizonte, na tarde desta quarta-feira, 10, com a presença de familiares e amigos. Em depoimentos ao Portal UFMG, eles destacaram a trajetória do professor e relembraram sua convivência com carinho e admiração. Separado, o professor deixa dois filhos.
‘Intelectual acessível, de inteligência brilhante’
Amigo de longa data de José de Anchieta, Wander Diniz relembrou que o conheceu há 40 anos, por meio dos filhos do professor, Marcelo e Rodrigo. “Privamos de uma amizade muito próxima e de uma vida compartilhada. José de Anchieta tinha inteligência brilhante, além de uma sensibilidade única para abordar as questões da vida e da morte”, comentou.
Por sua vez, o arquiteto e servidor da UFMG Eduardo Fajardo contou que conheceu Anchieta nos anos 80, época em que “o professor já circulava com extrema facilidade por todas as áreas do conhecimento”. “Mesmo sendo da área de arquitetura, tive o privilégio de assistir a palestras de Anchieta sobre urbanismo humano e arquitetura humana. Ele detinha um saber interdisciplinar formidável, com destaque para o campo da ética”, contou.
Fajardo ressalta ainda a simplicidade e a acessibilidade que marcavam a personalidade do docente, a quem que caracterizou como uma “pessoa dotada de grande erudição”, “sempre simpática e alegre”. Fajardo lembrou que José de Anchieta costumava frequentar o Pelego’s, o restaurante da Associação dos Servidores da Universidade Federal de Minas Gerais (Assufemg), no campus Pampulha, onde se encontrava com os amigos. “Ele deixou uma marca indelével na minha trajetória acadêmica, ao aceitar o convite para compor minha banca de mestrado”, relembra.
Uma vez que Fajardo e Anchieta eram conterrâneos da cidade de Itapecerica, os encontros entre os dois também se estendiam para além dos muros da Universidade. Para o servidor, Anchieta foi um “intelectual acessível” e “um ser humano de valor imensurável, que viveu uma vida longeva e feliz, atendendo a todos com total humildade”.

Trajetória e o encontro com Foucault
Doutor em Filosofia pela Universidade de Louvain, na Bélgica, o professor Anchieta construiu uma carreira marcada pelo rigor intelectual e pela dedicação à gestão universitária. Sua trajetória na UFMG inclui a coordenação do Programa de Pós-graduação em Filosofia por dois mandatos, nos períodos 1974-1976 e 1980-1982, além da chefia do Departamento de Filosofia entre 1989 e 1990. No âmbito da administração superior, ele atuou também como pró-reitor de Pós-graduação da UFMG entre os anos de 1985 e 1986.
Para além da UFMG, seu legado estendeu-se à bioética e à esfera pública. Foi membro titular do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais de 1984 a 1988, presidente da Sociedade de Estudos e Análises Filosóficas (Seaf) e professor titular de Ética Médica na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, instituição que lhe conferiu o título de professor emérito no ano de 2005.
Em maio de 1973, José de Anchieta desempenharia um papel fundamental na histórica recepção do filósofo Michel Foucault em Belo Horizonte. Interlocutor do pensador francês, Anchieta esteve presente na célebre conferência realizada pelo filósofo no Hospital Espírita André Luiz, evento que se tornou um marco na história da psiquiatria e da filosofia no estado, consolidando o diálogo entre as instituições mineiras e a vanguarda do pensamento europeu da época.
Assista entrevista com José de Anchieta na página Memória Filosofia UFMG, no YouTube:
Fonte: Portal UFMG • Por Matheus Espíndola
