Filosofia e Felicidade
ENTREVISTADO: Professor Guaracy Araújo
O professor possui graduação e mestrado em Filosofia pela UFMG e é professor na PUC Minas.
ASSUNTO DO PROGRAMA: Filosofia e Felicidade
BLOCO 1
O professor afirma, logo de inÃcio, que o tema da felicidade, apesar de despertar o interesse de qualquer pessoa em todas as épocas e, assim, parecer ser algo intuitivo e coisa simples de se entender, é um tema, uma noção muito pouco clara e muito pouco definida na história da filosofia. Guaracy evidencia essa caracterÃstica da noção de felicidade através de uma ideia que Santo Agostinho expressa nas Confissões quando ele vai falar do tempo, que se resume da seguinte maneira: o tempo, quando ninguém nos pergunta, sabemos exatamente do que se trata, entretanto, quando alguém nos pergunta, simplesmente não sabemos explicar, não somos mais capaz de entender. A felicidade, então, é caracterizada de modo semelhante: é intuitiva, todo mundo parece entender a palavra, porém, há uma grande dificuldade em se fixar o sentido da mesma, uma vez que, em várias culturas, temos várias maneiras de lidar com essa noção, sendo assim difÃcil estabelecer um conteúdo universal para a felicidade. Segundo Guaracy, essa dificuldade tem origem bastante antiga, desde o nascimento da cultura ocidental do ponto de vista discursivo, isto é, desde a cultura grega clássica, cultura que possibilitou a existência de grandes pensadores e de cidades estados.
Na própria cultura grega clássica e pré-clássica, existem vários termos correlatos ao que relacionamos com a ideia de felicidade, como “bem aventurança”, “fortuna”, “sorte”. O termo que foi consagrado pela tradição filosófica com o sentido de felicidade é eudaimonia, termo este que possui certos subentendidos, pois remete a uma noção tÃpica da cultura grega que é a noção de daÃmon, intermediário entre os deuses e os homens, que seria o condutor do destino dos homens. A noção de eudaimonia sugere que é necessário a cada homem possuir um bom daimon, uma boa condução, o que tem estreita relação com a maneira como os gregos pensaram e vivenciaram a felicidade.
O professor alude a um caso expresso pela História de Heródoto, no qual fica evidente uma dupla maneira de se entender a felicidade na antiguidade, o que confirma a já mencionada dificuldade em se definir a felicidade. Heródoto narra um suposto encontro entre dois personagens, Sólon e Creso . Sólon era considerado um grande sábio no momento em que a filosofia surgia, isto é, no perÃodo pré-socrático. Creso era rei da LÃdia, muito rico e famoso. Era a própria representação da noção de riqueza. Esse rei convoca Sólon, considerado sábio em vários reinos da época, para conhecer o seu reino e suas riquezas e para responder quem ele, sábio como era, considerava o homem mais feliz do mundo. Sólon não menciona Creso (como este esperava), mas outros personagens, como, por exemplo, Telo, um ateniense que teria morrido no auge da vida e em pleno gozo de tudo o que a vida poderia lhe oferecer. Outros Cleubes e BÃton, dois jovens irmãos que teriam realizado um ato heroico: por não haver bois disponÃveis, teriam levado a mãe a um festival, atrelados, eles mesmos, a um carro de boi e morreram por isso. Essa ação simbolizaria a satisfação após uma grande realização. Isso mostra a dupla visão acerca da felicidade nesse momento inicial: Creso supunha que ser feliz era ser portador de riquezas, Sólon, por sua vez, afirmava ser isso um equÃvoco, pois um homem somente pode saber se é plenamente feliz depois de sua morte. Trata-se, como se disse, então de uma dupla maneira de se entender felicidade: felicidade terrena e uma felicidade para além do terreno.
Algo que poderia evidenciar uma ideia mais definida de felicidade na antiguidade é a tendência que se observou de essa noção ser muitas vezes associada, na cultura grega, ao debate ético. A felicidade seria, então, um dos polos sobre os quais a ética se desenvolve. Do ponto de vista das finalidades, dos objetivos humanos, a felicidade se colocou como um interesse fundamental, restando, assim, a possibilidade de definir o que seria esse bem a ser obtido, esse bem maior dado pela noção de felicidade. E, a respeito desse bem a ser obtido, temos, na tradição grega, uma grande riqueza conceitual. Por exemplo, para a visão socrático-platônica, ser feliz, atingir a felicidade é atingir um certo estado posterior a uma vida plenamente examinada, uma vida a qual se pode oferecer razões, uma vida que pode ser legitimada por razões. Por outro lado, na concepção de Aristóteles, felicidade consiste na prática de ações virtuosas, sendo que virtuoso significa nesse contexto competência, qualidade de ação em contraposição a uma adequação a um código de conduta. Em relação aos cÃnicos, felicidade diria respeito à ideia de autarquia plena, independência material. Já, para os estoicos a mesma noção estaria relacionada a um certo estado da alma, na qual esta se coloca de forma indiferente frente à s paixões, aos prazeres. A visão epicurista definiria a felicidade como  um bom regime dos prazeres, uma boa forma de lidar com os prazeres e com os medos e dores que eventualmente ameaçam o ser humano.
Música: “Happiness” - Goldfrapp
BLOCO 2 - Zeno Furtado, aluno do curso de Filosofia da UFMG, entrevista o professor Guaracy Araújo:
Zeno Furtado: Qual desses momentos, na sua opinião, teve mais relevância para a Grécia no quisito da felicidade, foi talvez uma moral aristotélica, foi aquilo que os cÃnicos viam, os estoicos ou os epicuristas? Você acha que algum desses momentos teve alguma relevância sobre os outros?
Guaracy responde: Esta pergunta é difÃcil de ser respondida, uma vez que as diversas concepções mencionadas de felicidade evidenciam diferenças de modalidade estruturais, diferenças na maneira de lidar com a filosofia e diferenças de abordagem do mesmo tema. O fenômeno filosófico na cultura grega, sobretudo pré-cristã é muito distinto da forma que estamos acostumados a entender. A nossa maneira de entender filosofia é tributária da cultura do inÃcio do século XIX, final do século XVIII, na qual a filosofia tendeu a se transformar em campo disciplinar e assim adquiriu um status privilegiado no espaço das universidades. Entretanto, embora seja comum pensar o contrário, essa não é a única forma de manifestação do fenômeno filosófico. Na Grécia clássica, e também no perÃodo helenÃstico, a filosofia ou o fenômeno filosófico se apresentava de maneira muito distinta da que comumente se entende a filosofia: esta se apresentava a partir de escolas (platônica, aristotélica, epicurista e estoica). Nessas escolas, a noção de felicidade estava fortemente atrelada a um modo de viver especÃfico, a uma dada conduta valorizada. Cada escola possuÃa seu modo de viver especÃfico e com vistas a uma determinada noção de felicidade.
Cada uma dessas escolas impactou e influenciou culturas diferentes em momentos diversos e de maneiras diversas. Por exemplo, a concepção socrático-platônica teve um impacto forte no momento de constituição do cristianismo, ela é uma das fontes primárias da constituição de uma cultura cristã. Por exemplo, Santo Agostinho estabeleceu uma relação forte entre a noção de felicidade e a noção de predestinação ou graça, ou seja, a felicidade era vista como algo reservado somente para alguns homens. Nesse sentido, então, a graça seria um elemento importante para a possibilidade da felicidade. A influência platônica também se evidencia no pensamento de Agostinho ao defender que a ideia de felicidade somente poderia ser alcançada após a morte, ao desligar-se do mundo material.
As concepções epicurista e estoica tiveram um grande impacto na antiguidade, já que forneciam modelos de conduta que eram facilmente perceptÃveis. Segundo Guaracy, a filosofia na época antiga dialogou e talvez se aproximou da sabedoria com mais intensidade por meio do estoicismo e do epicurismo e talvez seja por isso que essas escolas obtiveram um exuberante poder de adesão na antiguidade clássica e romana.
O aristotelismo é retomado no fim da idade média a partir da releitura e da reprodução das obras de Aristóteles no ocidente. Essa releitura de Aristóteles, a chamada escolástica, teve  um grande impacto no surgimento do debate ético e do debate acerca da felicidade no mundo moderno. Aristóteles criou no seu pensamento uma relação forte entre felicidade e virtude. Virtude vista como modo de agir, ação virtuosa. Essa maneira de entender a felicidade como prática constante de um comportamento que pode ser qualificado como virtuoso foi incorporada, relida pelos medievais a partir de uma espécie de noção de dupla felicidade, que se encontra, por exemplo, em São Tomás de Aquino. São Tomás de Aquino sugere que existe uma espécie de felicidade terrena e uma espécie de felicidade que vai além do terreno ou indica um caminho para além do terreno.
Essa visão de uma espécie de dupla felicidade foi fortemente combatida pela idade moderna, que se insurge contra o aristotelismo com grande força, o que criou um grande problema para o debate ético, uma vez que este tinha Aristóteles como referência para se pensar diversas questões. Assim, ocorre um esvaziamento da ideia de felicidade proposta por Aristóteles, a qual estaria estreitamente relacionada com a ideia de virtude. A felicidade, para tal autor, estaria ainda relacionada à noção de ação prazerosa, pois, para ele, não é possÃvel agir tendo em vista a felicidade, se tal ação não for prazerosa. Na modernidade, o indivÃduo é apresentado, através de suas afecções e de suas caracterÃsticas, como o polo a partir do qual a ideia de felicidade (entre outras, tais como a polÃtica, a ética) deve ser pensada. A expressão dessa focalização no indivÃduo pode ser encontrada em Tomas Hobbes que sugere que o ser humano é positivamente conduzido por um desejo que é contÃnuo, recorrente, regular, permanente, desejo esse que está fortemente vinculado à busca de prazeres (indica essa busca). A partir disso, Hobbes criou um modelo de ser humano muito influente no pensamento moderno. A noção de felicidade passou a ter um vÃnculo cada vez mais exclusivo com a possibilidade de realizar desejos. A felicidade tendeu-se cada vez mais a se aproximar da ideia de satisfação de desejos que estão vinculadas a obtenção de prazeres, e satisfação corporal.
Música: “A felicidade” - Tom Zé
BLOCO 3
Zeno: Qual a relação entre a felicidade e o estado em Hobbes? Pois eu concebo o estado como um nivelador dessa felicidade. O ser humano só pode ser feliz até um determinado ponto, o qual o estado permite, há sempre essa limitação. Tratas, então, de uma concepção da felicidade um pouco negativa. Você enxerga da mesma maneira?
Guaracy responde: Guaracy enfatiza a necessidade de se lembrar que o pensamento de Hobbes tem um aspecto antropológico importante que gerou uma teoria polÃtica. Guaracy afirma que o que Hobbes vê de forma negativa não é exatamente a felicidade, mas a liberdade natural do ser humano, a qual seria encontrada nos homens em estado de natureza. Tal liberdade negativa leva os homens a perseguirem seus interesses de forma desenfreada se não houver a interferência de um poder polÃtico que seja capaz de coibir os abusos e estabelecer uma espécie de limite comum no qual todos poderão fazer aquilo que quiserem na condição de que não ofendam as leis.  Pode-se dizer, assim, que, no pensamento de Hobbes, o ser humano não está voltado para uma ideia de finalidade, como sugere Aristóteles, ao afirmar que o ser humano se torna feliz pela virtude, ou seja, ao perseguir uma finalidade, que é um bem próprio (bem polÃtico, comum da cidade). Para Aristóteles, pensar a ação significa pensar o prazer como um aspecto de menor importância na vida humana, sobretudo, naquele sujeito que quer se tornar virtuoso, quer entrar no cÃrculo da virtude. A ação virtuosa tem que ser prazerosa, mas o prazer não é um condicionante para a felicidade.
Contudo, em Hobbes, não existe uma finalidade para o ser humano, mas somente um desejo de continuar vivo, um desejo de sobrevivência e isto nada tem a ver com a ideia de finalidade. Nesse seu interesse de continuar vivendo, o homem percebe que existem certas coisas que podem garantir a sua sobrevivência e estas tornam-se seu objeto de desejo e é justamente esse seu objeto de desejo que lhe gera prazer. Assim, a definição de felicidade para Hobbes relaciona-se à obtenção continua de prazeres.
Zeno: E como está essa felicidade hoje em dia? Parece estar muito perene, não é? Visando a obtenção de produtos, de material (mentalidade burguesa, capitalista, visando a produção em massa), não é uma felicidade fixa como a gente via talvez no estoicismo, uma felicidade mais como uma conduta em conjunto, até o cristianismo, não existe mais um Deus, estamos meio sem rumo. O que você acha dessa situação?
Guaracy responde: Há duas coisas a esclarecer. A primeira é que quem estuda filosofia deve ter muito cuidado com os juÃzos de valor. Na cultura ocidental do último século, o desejo passou a ocupar um papel muito proeminente. Por uma série de razões, o desejo passou a ser visto como um grande princÃpio antropológico, uma das grandes formas de explicar a experiência humana. Trata-se de uma verdadeira “cultura do desejo”. A partir da modernidade tardia (século XIX) desenvolveram-se vários modelos de interpretação do comportamento humano, diversas teorias que se apoiam na ideia de desejo e em elementos correlatos. Portanto, não é estranho que, em nossa cultura, as noções de felicidade e satisfação dos desejos estejam altamente correlacionadas. Entretanto, deve-se haver um cuidado ao se afirmar que o indivÃduo da sociedade capitalista contemporânea é uma espécie de marionete de seus próprios desejos. Entretanto, é possÃvel dizer que essa maneira de interpretar a relação do homem com a felicidade se tornou um lugar comum. O segundo esclarecimento que deve ser feito é que, dentro dessa própria cultura do desejo e dentro da própria teoria de autores que estudaram o comportamento humano e a expectativa da felicidade como ligada à obtenção de bens, de prazeres, dentro desse mesmo campo, surgem alguns autores e sugestões que marcam uma opinião diferente a respeito desse assunto, como, por exemplo, Adam Smith que afirma que  a busca da obtenção de bens, de mercadorias é uma espécie de armadilha para o indivÃduo no mundo capitalista.
Música: “Rap da felicidade” - Mc Cidinho & Mc Doca
BLOCO 4
O professor Guaracy apresenta diversas citações de vários autores, alguns não filósofos, que possuem definições bastante distintas de felicidade (ou do que é ser feliz), o que corrobora a sua afirmação inicial de que a felicidade é uma noção tratada e conhecida por todos, mas difÃcil de ser definida com precisão, uma vez que inclui percepções muito distintas:
1)Antoine de St. Exupery
2)Romain Rolland (escritor francês do inÃcio do século XX)
3)Bertrand Russell (filósofo inglês do século XX)
4) Boris Leonidovitch Pasternak (escritor russo)
5)Aristóteles (Ética a Nicômaco)
6)Bernard Shaw (dramaturgo importante do século XX inglês)
7)Baruch de Espinosa (filósofo do século XVII)
8)Voltaire (filósofo do século XVIII)
9)Edgar Allan Poe (escritor americano do século XIX, busca da felicidade associada a um certo tipo de saber, conhecimento, ciência. É necessário obter algum tipo de conhecimento e a obtenção desse conhecimento é o caminho da felicidade)
10)Thomas Mann (escritor alemão do século XX)
11)Léon Tolstói (escritor russo do século XIX, século XX)
12) Arthur Schopenhauer
13) Arthur Schopenhauer
14)Gustave Flaubert (escritor francês do século XIX)
15)Paul Valéry
16)Jean- Jacques Rousseau
17) François de La Rochefoucauld
18)Charles Dickens (no romance David Copperfield)
19)Aristóteles
20)Michel de Montaigne
21)Schopenhauer
22)Oscar Wilde (um dos grandes hedonistas da história, escritor irlandês)
23)VinÃcius de Moraes
24)Friedrich Nietzsche (filósofo alemão do século XIX)
25)John Stuart Mill
26) François de La Rochefoucauld
27) Boris Vian (escritor francês do século XX)
28)Léon Tolstói
29)Sêneca (Cartas a LucÃlio)
30) Georges Bernanos
31) Heinrich Heine
Música: “O habitat da felicidade” - Lula Queiroga
Filosofia e Felicidade - parte I
Filosofia e Felicidade - parte II
Filosofia e Felicidade - parte III
Filosofia e Felicidade - parte IV
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