Apresentação
—André Brasil

Dossiê: Cinema, Estética e Política

A Estética como Política*
—Jacques Rancière

5 x Favela - agora por nós mesmos e Avenida Brasília Formosa:
da possibilidade de uma imagem crítica
—Cezar Migliorin

Pacific: o navio, a dobra do filme
—André Brasil

Corpo, tecnologias, política: Mistérios e Paixões (Naked Lunch)
e eXistenZ de David Cronenberg
—Maria Cristina Franco Ferraz

A teta assustada e a estrangeiridade no/do corpo
—Alessandra Brandão

O tremor das imagens: notas sobre o cinema militante
—Anita Leandro

Uma paisagem, um acontecimento, um poema:
a poeira como uma forma de pensar o mundo
—Eduardo Jorge de Oliveira

Do espectador crítico ao espectador montador
—Consuelo Lins

Um dia na vida do outro espectador
—César Guimarães

Fotograma Comentado - A presença de uma ausência:
A falta que me faz e Morro do Céu
—Cláudia Mesquita

Fora de Campo

Yo, Tú, Hiroshima… (Un comentario acerca
de la imposibilidad del testimonio)
—Yamila Volnovich

A perseguição no cinema: um ensaio sobre Tropical Malady,
de Apichatpong Weerasethakul
—Marie-José Mondzain

*O texto A Estética como Política de Rancière estará
disponível somente na versão impressa da Devires.
Apresentação
André Brasil
Fotograma comentado - A presença de uma ausência: A falta que me faz e Morro do Céu
Cláudia Mesquita
Corpo, tecnologias, política: Mistérios e Paixões
(Naked Lunch) e eXistenZ de David Cronenberg
Maria Cristina Franco Ferraz

resumo: O artigo investiga relações históricas entre corpo, tecnologias e política nos filmes de Cronenberg Mistérios e paixões (1991) e eXistenZ (1999). No primeiro, a abordagem do inconsciente se desdobra nas máquinas literária, política, erótica. Em eXistenZ é explorado outro tipo de máquina, ligado à cultura somática, à lógica empresarial e ao mundo dos games. Afastando-se de falsos debates (adeptos do "real" X seguidores do "virtual"), esse filme destaca a questão política do caráter programável inerente à cultura, inclusive ao cinema.

Uma paisagem, um acontecimento, um poema:
a poeira como uma forma de pensar o mundo
Eduardo Jorge de Oliveira

resumo: Se podemos afirmar com Georges Didi-Huberman que "a poeira permite pensar o mundo", o filme Noite e neblina, de Alain Resnais, os poemas de Bertolt Brecht, o verbete "Poeira", de Georges Bataille operam questões que alteram um ethos no campo da imagem.

Yo, Tú, Hiroshima… (Un comentario acerca
de la imposibilidad del testimonio)
Yamila Volnovich

resumo: Este trabalho gira em torno de uma frase –"Tu n'as rien vu à Hiroshima. Rien!"– e das imagens que ela atualiza para explorar a questão que atrevessa o cinema desde o pós-guerra: que significa olhar? Entre ver e olhar, entre o acontecimento e a representação, entre o visível e o enunciável, a imagem documental acode para dar testemunho dessa brecha e remete ao problema da sua relação referencial com o mundo histórico. Hiroshima... é, sem dúvida, um acontecimento no qual o cinema encontra, apesar de toda carência, sua potência de sentido.

Pacific: o navio, a dobra do filme
André Brasil

resumo: Pacific, documentário de Marcelo Pedroso, constitui-se exclusivamente de imagens dos próprios turistas, realizadas durante um cruzeiro a Fernando de Noronha. Com a estratégia, o filme nos mostra, por dentro, uma heterotopia marcada pelos imperativos do gozo e da performance de si. Ao receber voluntariamente imagens que não foram, a princípio, endereçadas ao filme, o diretor se vê diante de um impasse: se, de um lado, não se trata de aderir acriticamente ao universo do cruzeiro, por outro, a crítica não deve resultar de um gesto de excessivo distanciamento. Em meio ao excesso de imagens e de performances de si, entre erros e acertos, o filme busca a justa distância.

O tremor das imagens: notas sobre o cinema militante
Anita Leandro

resumo: Entre 1968 e 1974, os operários franceses pegaram em câmeras como se pega em armas, e realizaram quatorze filmes militantes. Retomamos aqui algumas dessas obras, buscando na estética dos Grupos Medvedkine, como ficaram conhecidos, ensinamentos sobre a história política recente.

Um dia na vida do outro espectador
César Guimarães

resumo: Este texto analisa a inquietante experiência que Um dia na vida (definido como "material de pesquisa para um filme futuro") provoca no espectador que o assiste na sala escura. Imersas na escuridão e deslocadas de seu lugar de origem, as imagens televisivas, agigantadas na tela, exibem a fratura entre o mundo do telespectador e o do cine-espectador.

5 x Favela - agora por nós mesmos e Avenida Brasília
Formosa
: da possibilidade de uma imagem crítica
Cezar Migliorin

resumo: As favelas são parte da disputa estética e política na cidade. Uma disputa que se faz em torno do descontrole das potências vitais que ali se forjam.Privilegiamos neste artigo os filmes 5 x Favela - agora por nós mesmos (Cacá Diegues – prod., 2010) e Avenida Brasília Formosa (Gabriel Mascaro, 2009) e com eles investigamos as possibilidades críticas, de escrituras e projetos, que operam no horizonte biopolítico do capitalismo contemporâneo.

A teta assustada e a estrangeiridade no/do corpo
Alessandra Brandão

resumo: O artigo propõe uma leitura de A teta assustada (Claudia Llosa, 2009), a partir da perspectiva de Jean-Luc Nancy sobre a estrangeiridade (em L'Intrus). Como o coração transplantado para Nancy, a batata que Fausta carrega no ventre desperta a discussão sobre o corpo e sua relação com a exterioridade. Na fronteira que borra o dentro e o fora, a estratégia de imunização de Fausta (aqui pensada segundo Esposito) engendra uma subjetividade que se articula entre um devir-batata e um devir-flor.

Do espectador crítico ao espectador montador
Consuelo Lins

resumo: Rupturas e continuidades entre o filme mais recente do cineasta Eduardo Coutinho, realizado com imagens da televisão aberta, e seus filmes anteriores, baseados na interação entre ele e personagens diversos. A pilhagem de imagens midiáticas e a exibição desse material editado em uma sala de cinema configuram um gesto artístico cujas dimensões estéticas e políticas adquirem mais importância do que o objeto fílmico e convocam um espectador não apenas critico ou cético diante do que vê, mas um espectador-montador.

A perseguição no cinema: um ensaio sobre Tropical
Malady
, de Apichatpong Weerasethakul
Marie-José Mondzain

resumo: Este ensaio foi apresentado oralmente pela filósofa Marie-José Mondzain no seminário A Perseguição no Cinema, promovido conjuntamente pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFMG e pelo forumdoc.bh (Festival do Filme Documentário e Etnográfico/Fórum de Antropologia, Cinema e Vídeo), em novembro de 2009. Ao analisar o filme Mal dos trópicos (Tropical malady, 2004), do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul, Mondzain descreve como a perseguição erótica e iniciática é integrada à variação infinita das substituições e mudanças, própria da metamorfose. O texto original nos foi gentilmente cedido pela autora.